Beca Figueiredo
Beca Figueiredo

Mulheres se unem por mais espaço no carnaval de rua

Comissão Feminina cobra lugar nas discussões da folia em SP e quer que Prefeitura assuma, por exemplo, campanha contra assédio

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Com o avanço do carnaval de rua de São Paulo, as mulheres estão cobrando mais participação nas decisões. A presença de apenas duas mulheres em uma reunião para discutir a folia paulistana, em agosto, foi um abre-alas para a criação da Comissão Feminina do Carnaval de Rua de São Paulo (CFCR-SP).

Juliana Matheus, que virou personagem dessa cena, conta que os questionamentos eram óbvios. Fundadora do bloco Filhas da Lua e integrante do Fórum dos Blocos, percebeu o incômodo das mulheres que fazem carnaval há mais tempo do que ela. “Era uma coisa de estar lá em minoria, sabendo que existem muitas mulheres no carnaval de rua, participando ativamente da organização”, diz.

Em menos de duas semanas, Juliana encontrou e reuniu 50 mulheres dispostas a lutar por pautas que beneficiariam não só mulheres, mas toda a sociedade. Atualmente, 60 blocos, bandas e cordões são representados pela CFCR-SP. Mas outras dezenas de blocos de carnaval desfilam sob o comando feminino, seja na voz que lidera o grupo, na produção e organização ou na composição da bateria. O Filhas da Lua, por exemplo, nasceu em 2017 de um grupo de amigas que se reunia em rodas de samba no bairro Bexiga. O primeiro desfile foi em 2018 e, hoje, mais de 120 mulheres, cisgênero e transexuais, compõem o cortejo do bloco, o corpo de baile e a bateria.

Já o bloco Ilú Obá de Min, que faz parte da CFCR-SP, leva um contingente de 430 mulheres para as ruas durante o carnaval, que atuam na dança, como pernaltas, cantoras e na bateria – elas são 80% do grupo todo. Com o objetivo de difundir a cultura afro-brasileira, elas também destacam a participação e o protagonismo feminino. “Chegamos em peso. Em 15 anos, temos mais de 350 mulheres só na bateria, criando a cada ano suas composições e atuando como protagonistas das nossas histórias de mulheres pretas e ativistas que são. Só estamos aumentando a cada ano”, comemora Beth Beli, fundadora da associação que dá nome ao bloco de carnaval.

A Comissão Feminina enviou, em 30 de janeiro, um ofício a nove secretarias do Município, com reivindicações de maior participação, mas diz que não obteve retorno satisfatório. Questionada pela reportagem, a Prefeitura não se manifestou.

Assédio

Uma das principais reivindicações do grupo é que a campanha contra o assédio no carnaval seja de responsabilidade do poder público. O Não é Não, por exemplo, teve início em 2017 no Rio com 40 mulheres distribuindo 4 mil tatuagens temporárias. Hoje, o projeto é mantido por financiamento coletivo na internet.

Em nota, a Prefeitura informou que vai instalar 20 tendas de acolhimento para atender vítimas de assédio durante o carnaval de rua. Os espaços terão voluntários e voluntárias do Catraca Livre, advogadas, psicólogas e assistentes sociais.

Três perguntas para Preta Gil

Cantora e fundadora do Bloco da Preta

Você acha que a representação da mulher no carnaval tem mudado? Ainda devem ocorrer novas mudanças?

Não é possível imaginar um carnaval sem a figura da mulher, ela está em toda parte e por isso mesmo resolvi eleger o tema “mulheres que inspiram” para os desfiles do nosso bloco (Bloco da Preta). Sinto que nos últimos anos há uma crescente no número de blocos femininos, nas discussões sobre assédio, sobre o corpo livre. Vejo que as mulheres estão mais unidas na forma como colocam as questões. A mulher assume cada vez mais sua voz, suas mensagens e seu direito de viver seu carnaval como bem entender. 

Como foi a escolha do tema do bloco? 

Achei que estava na hora de levar essa questão para a massa, tenho participado de conferências, premiações, fóruns de discussão… Usar meu palco para jogar luz na mulher foi um processo natural. Fizemos uma homenagem a todas, mas em especial à Chiquinha Gonzaga, mulher à frente do seu tempo que lutava por direitos e ideais não somente seus, mas dos negros, músicos e mulheres. No Rio, cantamos uma versão “empoderada” de Ô Abre-alas com mulheres de vários blocos femininos. É incrível: mais de um século depois de Chiquinha compor a primeira marchinha ainda estamos discutindo o papel da mulher da sociedade.

Outras marchinhas merecem ser revistas?

Há marchinhas antológicas, sempre tenho um apanhado nos repertórios do bloco. De uns tempos para cá, excluí algumas com letras ofensivas, que não fazem mais sentido. /COLABOROU GABRIELA MARÇAL

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