DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Mulheres se reúnem em protesto contra Cunha no centro de SP

Manifestação saiu do Vale do Anhangabaú; ato é contra proposta de autoria do presidente da Câmara que dificulta o aborto legal

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

25 Novembro 2015 | 19h30

Anna Carolina Jeunon tem 18 anos, faz cursinho - quer ser arquiteta - e, poucos meses atrás, foi vítima de assédio sexual, com contato físico, em um ônibus de São Paulo. Ela participou nesta quarta-feira, 25, pela primeira vez de um ato feminista: a manifestação ocorrida contra o Projeto de Lei 5.069, que saiu do Vale do Anhangabaú por volta das 18h e tinha encerramento previsto na Praça Roosevelt, ambos na região central de São Paulo.

Foi pelo trauma, pela dor, que Anna Carolina se tornou feminista. E o fato de ser ela estudante pré-vestibular a caracteriza mais ainda com o polêmico tema da redação da última edição do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem: a frase da escritora e filósofa Simone de Beauvoir (1908-1986), a definição de que "ninguém nasce mulher: torna-se mulher". No caso de Anna, uma das tantas milhares de vítimas de assédio, outro aforismo beauvoiriano também se aplica: "Em todas as lágrimas há uma esperança". 

"Passar pelo que passei fez com que eu abrisse os olhos para a questão da mulher", relata a estudante. "Fui estudar a história, entender toda a opressão e compreender os motivos dessa luta importante. Que deve ser de toda a sociedade." 

Então, cabe aqui uma última frase da feminista Beauvoir: "Querer ser livre é também querer livres os outros."

"Não sou de nenhum grupo organizado, sou independente. Mas acho muito importante estar aqui, integrando esta luta", diz Anna Carolina. 

Da manifestação desta quarta, participam dezenas de integrantes de cerca de 15 coletivos de luta pelos direitos da mulher. Uma das faixas trazia a sinopse da reivindicação do grupo: "Mulheres contra Cunha! Aborto legal, seguro e gratuito".

O deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atual presidente de Câmara, é o autor do Projeto de Lei 5.069. Datada de 2013, sua proposta passou, em outubro, pela Comissão de Constituição e Justiça. O próximo passo é a votação em plenário. Se acabar se tornando lei, o projeto vai alterar o atendimento às mulheres vítimas de estupro, dificultando o aborto legal. 

Em adesivos afixados nas camisetas de algumas ativistas, a frase: "Punir o estupro, não as mulheres".

"Nossa sociedade machista e capitalista limita o direito das mulheres a uma vida sem violência", afirma a socióloga Célia Alldridge, de 39 anos, militante da Marcha Mundial das Mulheres. Ela lembra que o movimento ao qual integra começou em 1998, e tem na luta contra a violência uma das principais bandeiras. 

Já dizia, aliás, a escritora Virginia Woolf (1882-1941): "As mulheres, durante todos os séculos, têm servido de espelhos dotados do mágico e delicioso poder de refletir a figura do homem ao dobro do seu tamanho".

A data não era por acaso. Nesta quarta, celebrou-se o Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher em memória do assassinato, exatos 55 anos atrás, das irmãs Mirabal, militantes da República Dominicana. "É importantíssimo frisar esse fato, porque é algo muito representativo de nossa luta", pontua a relações públicas Vivian Mendes, de 34 anos, do Movimento de Mulheres Olga Benário. "Sou nascida e criada na periferia paulistana, em Guaianases, e isso me faz sentir na pele como é difícil ser mulher na sociedade."

Integrante do grupo Mulheres em Luta, a professora Veruska Oliveira Tenoro, de 42 anos, pontua que contra a mulher não pesam apenas as violências física, sexual e doméstica, mas ainda uma violência institucional. "Veja só os políticos, que teimam em tentar nos tirar os direitos", salienta ela. 

"Mesmo com os avanços, a mulher - e, no meu caso, que sou negra, mais ainda - é superexplorada e oprimida na sociedade", afirma a metalúrgica Janaína dos Reis, de 38 anos. "As desigualdades vividas pela mulher, do assédio às diferenças salariais, me despertaram para esta luta", conta a terapeuta ocupacional Marcela Azevedo, de 31 anos. 

Voltemos à Virginia Woolf. "É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade", escreveu ela. Neste caso, ao menos, ela parece estar errada. Porque são muitas as mulheres que testemunham ser a violência de gênero uma realidade - e a dificuldade de extirpá-la reside em todas as esferas sociais. 

Rio de Janeiro. Cerca de mil pessoas, segundo os organizadores, participaram de mais um ato realizado no centro do Rio de Janeiro, no final da tarde e início da noite desta quarta-feira, contra Cunha. Foi o terceiro protesto organizado por grupos de mulheres, que criticam o deputado por ser autor do projeto de lei 5.069/2013. As ativistas se articulam pelas redes sociais e fazem campanha para que o projeto seja rejeitado pelos deputados.

Outro alvo do grupo foi o secretário municipal de Governo do Rio, Pedro Paulo Teixeira. Lançado pré-candidato à Prefeitura do Rio em 2016 pelo atual prefeito, Eduardo Paes (PMDB), Pedro Paulo já admitiu três episódios de violência cometida contra a ex-mulher, Alexandra Marcondes. Apesar das denúncias, o secretário continua sendo apoiado pelo partido para disputar a eleição municipal do próximo ano.

O grupo se reuniu por volta das 17 horas em frente à Assembleia Legislativa e seguiu em caminhada pela Rua da Assembleia e Avenida Rio Branco até a Cinelândia. O ato se estendeu até por volta das 20h30./COLABOROU FÁBIO GRELLET

 

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