PAULO PINTO/AE
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Mulheres são mais satisfeitas com o corpo na periferia

Estudo feito no Rio mostra que, enquanto nas classes mais altas o objetivo é ser magra, nas favelas o modelo é bem mais curvilíneo

Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2011 | 00h00

A procura do corpo perfeito é democrática, um desejo acalentado por qualquer mulher, rica ou pobre. O que muda é o conceito de beleza. Entre as mais ricas, qualquer sacrifício vale a pena para chegar perto da magreza das modelos. Entre as mais pobres, bonito mesmo é o corpo farto e curvilíneo das dançarinas de pagode. A grande diferença entre os dois grupos é o sofrimento diante do excesso de peso. As mais ricas tentam se esconder sob roupas largas. As mais pobres exibem a gordura sem pudor em microshorts e tops justíssimos.

A diferença no comportamento dessas mulheres chamou a atenção de Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio e pesquisadora da Universidade do Estado do Rio. Para entender os motivos dos dois grupos, Joana percorreu áreas chiques da zona sul carioca e subiu três favelas, entre elas a Rocinha, que possui quatro academias de ginástica. O resultado é o livro Com que corpo eu vou? - Sociabilidade e usos do corpo nas mulheres nas camadas altas e populares, lançado pela Pallas.

Igualdade. Depois de ouvir o relato de mais de 200 mulheres, Joana não tem dúvidas. As moças das favelas se preocupam tanto quanto as "patricinhas" endinheiradas em terem um corpo bonito. Fazem ginástica, entram na fila de hospital público para fazer lipoaspiração, tomam chá para emagrecer, mas o objetivo é bem diferente. Na elite, a motivação é o espelho. "Para essas mulheres, o que importa é a relação com elas mesmas. Dizem que querem ser magras para se sentir bem", explica. Na favela, o interesse é conquistar os homens. "Elas querem ser chamadas de gostosas, querem exercer sua sexualidade."

Joana, de 33 anos, magra, moradora do Jardim Botânico, acredita que as mulheres das camadas populares são muito mais felizes com seus corpos, mesmo quando estão gordas. Uma das entrevistadas, moradora de uma favela, resume bem o espírito: "Acho a coisa mais ridícula do mundo quando vejo mulher gorda, de roupa larga, se escondendo atrás daquele bando de pano. Quando vejo na rua, já sei: é rica. Até parece que o fato de estar coberta a tornará mais magra, pelo contrário! Aí mesmo é que nenhum homem vai olhar, então é melhor assumir do que se esconder e fingir que é uma coisa que não é", relata Jéssica, empacotadora de supermercado e cheia de curvas aos 32 anos.

Nas mulheres mais ricas, gordura é sinônimo de feiura. Dilma, ex-bailarina de 45 anos, explica essa vergonha de ser gorda. "Quando estou magra me divirto, vou ao shopping com as amigas, namoro, vou à boate. Quando engordo, me tranco no quarto e apago a luz para não me ver horrorosa no espelho. Namorado, nessas épocas, nem pensar!"

Não importa se na favela ou no asfalto, o corpo é fundamental para as cariocas. "O corpo é o cartão de visitas. Ele é a roupa. São Paulo tem a cultura do light, da magreza, mas a roupa ainda é adereço importante. No Rio, há um desvelamento do corpo", acredita. Mas, segundo Joana, é um discurso de paulistana que resume bem a filosofia da turma endinheirada do Rio. Quando perguntaram a Adriane Galisteu como ela sabia a hora certa de fechar a boca, a resposta foi peculiar: "Se alguém me chamar de gostosa na rua, já sei que estou gorda." "Esse é o pensamento da elite carioca", diz Joana.

Cobrança. O medo da gordura não é só neurose feminina. A sociedade exige a magreza. "Queremos ser bem avaliadas pelos nossos pares. Uma mulher gorda na classe média é motivo de escárnio. Na favela, ela não precisa se livrar dos recheios para ser admirada." Além do mais, as mais pobres têm outras preocupações. "Elas gastam mais energia em garantir direitos básicos de sobrevivência, coisas que para a mulher de classe média já estão resolvidas. Pelo menos nessa relação com o corpo, as moradoras de favelas são bem mais felizes."

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