Mulheres migram sem a família

Pastoral estima mais de mil acolhidos em Manaus

Liege Albuquerque, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

A casa das 35 mulheres haitianas, mantida pela Igreja Católica no centro de Manaus, deve receber mais uma nos próximos dois meses. Mona Charles, de 32 anos, está grávida de 7 meses da primeira menina, depois de três filhos homens. Há outras duas grávidas de meninos na casa, todas em compasso de espera de muita coisa: além dos filhos na barriga, esperam emprego, poder trazer a família para junto delas e um visto de refugiadas no Brasil. Nenhuma quer voltar ao Haiti. Pelos dados da Pastoral do Migrante em Manaus, já estão na cidade mais de mil haitianos.

"No meu país é impossível emprego, mas aqui também está difícil, ainda mais com a barriga", lamenta Mona. Ela trabalhava como vendedora em Croix-des Bouquets e estava na loja no dia 12 de janeiro de 2010, quando sua casa foi destruída pelo terremoto. "Meus filhos estavam, como estão hoje, com minha mãe."

A haitiana alta e de olhos expressivos chegou há quase oito meses no Brasil. Não sabia que estava grávida novamente do marido, taxista, que cuida das outras três crianças com a avó materna. Mona tem uma história comum às outras companheiras da casa montada pela Igreja para abrigar apenas mulheres que chegam sozinhas ao Amazonas. Assim, totalmente solitárias, são a maioria entre os que já entraram no Estado, como mostram os relatórios da Pastoral do Migrante no Amazonas.

Conforme o padre Gonçalo Franco, anfitrião dos haitianos que entram por Tabatinga, até hoje ele só viu uma família completa do Haiti entrando no Brasil: pai, mãe e um filho de 7 anos. "Eles deixam todos da família para trás para ver se dá certo e só depois trazer os outros", explica.

"Não conhecia nada do país, mas de todos por onde passei, nos dois meses da viagem, o Brasil é o mais acolhedor", diz Mona. Ela gastou US$ 4 mil até Tabatinga, depois de sair de Porto Príncipe, passando por Equador, Colômbia e Peru.

Toda quarta-feira, Mona e as outras mulheres da casa têm aulas de português, ministradas por uma professora paga pelo governo estadual. Recebem de empresas e pessoas solidárias roupas, mantimentos e promessas de emprego. Mona, logo que chegou a Manaus, trabalhou por dois meses como doméstica sem nada receber, dormindo em colchão na cozinha. Quando reclamou com gestos, o patrão a expulsou, dando R $2,25 para o ônibus.

"Muitos desistem (de empregá-las) por saberem que elas ainda não têm visto. Mas é um problema que só vai aumentar, pois o governo não vai dar vistos", lamenta a irmã Santina Perin, a coordenadora da casa das 35 mulheres. E essa é só uma das 11 instituições que a Igreja mantém como abrigo para os haitianos, que não param de chegar.

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