Mulheres lotam aulas - e ringues - de lutas

Boxe, jiu-jítsu, muay thai e até vale-tudo são as modalidades mais praticadas por elas

Filipe Vilicic, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2010 | 00h00

No ringue. Alunas lutam muay thai em academia de Perdizes; elas procuram o esporte para relaxar, ganhar autoconfiança, emagrecer e melhorar o condicionamento físico

 

 Lutar não é mais só coisa de homem. A mulherada agora lota aulas de boxe, muay thai, jiu-jítsu e até de Mixed Martial Arts (o antigo vale-tudo). E não é apenas por condicionamento físico, para bater num saco de areia ou pular corda. Elas têm subido no ringue e feito "luva" (termo para o treino que simula uma luta, com soco na cara, joelhada na barriga, chute na coxa).

O fenômeno é novo nas academias. "Há dois anos, quase não havia alunas nos treinos", diz o lutador de muay thai Ivam Batista, professor da Fight Club, em Perdizes. "Hoje, as aulas têm várias moças. No meu horário mais cheio, com 22 praticantes, há mais mulheres do que homens."

Segundo as academias paulistanas ouvidas para a reportagem, faz cerca de cinco anos que começou a aumentar a demanda da mulherada por lutas tidas como violentas - a exemplo do boxe, do jiu-jítsu e do muay thai (modalidade que permite joelhadas e cotoveladas). Para se ter ideia de como o esporte virou moda entre as garotas, só dez alunas praticavam alguma modalidade do tipo na Fórmula do Shopping Eldorado em 2005 (onde há aulas do tipo desde 1993; mas, antes, era coisa de homem). Hoje, são 40 que brigam por hobby - quase 25% do total de lutadores da academia.

Moda. "A mania pegou porque as lutas se popularizaram, com a fama do Mixed Martial Arts, e perderam o estigma de serem violentas", afirma Giancarlo Gaeta, lutador e dono da Fight Club, onde há mulheres até nas aulas de vale-tudo. "E também porque as academias começaram a oferecer esse esporte de uma forma mais apropriada para o público feminino."

Segundo ele, que pratica lutas como jiu-jítsu há 40 anos e fundou seu negócio há 15, antes se aprendia o esporte apenas em centros que cheiravam a suor masculino. E os treinadores só queriam ver os alunos distribuírem sopapos em competições.

"Agora, as instalações das academias especializadas são mais limpas e bonitas", conta Gaeta. E os treinos são adaptados para o que as damas querem. "Se a mulher prefere apenas socar um saco para combater o estresse, fazemos uma aula específica. Se quer perder peso, também criamos um treino especial. E também incentivamos as que optam por subir no ringue."

Caso da apresentadora de TV Veridiana Bressane, de 29 anos, que treina boxe, muay thai e jiu-jítsu na Fight Club. "É ótimo colocar a agressividade para fora", diz. Para ela, "trocação" (termo de lutador para quando os atletas combatem) não é só para os meninos. "Gosto da disputa, de ceder aos instintos e da adrenalina." Segundo Veridiana, a luta tem o mesmo efeito relaxante de uma aula de ioga.

Hobby. Mas a aluna não precisa gostar de subir no ringue para entrar na onda. "Eu não tenho tanta sede quanto ela", afirma a personal trainer Liane Mazoni, de 30 anos, que treina muay thai na mesma academia de Veridiana. "Apesar de também subir no ringue às vezes, procuro o esporte mais pelo condicionamento." Uma aula de uma hora e meia queima até mil calorias.

Liane pratica há cerca de dois anos. "Optei pelo thai porque estava enjoada da musculação", conta. "Queria algo diferente e mais divertido."

Fugir da malhação é, aliás, um dos motivos mais citados pelas garotas para migrar para as lutas. "Não é chato como correr na esteira ou levantar peso", defende a professora de natação Anna Aguiar, de 38 anos. Ela pratica jiu-jítsu há três meses na Companhia Athletica do Shopping Morumbi.

Por esse lado, digamos, mais pacífico, o esporte virou hobby até de quem tinha medo de lutar. "Não tinha coragem de entrar no tatame", relata a universitária Natália Sousa, de 21 anos. "Achava que ia me machucar."

Agora, ela, que pratica jiu-jítsu há oito meses, diz adorar os treinos. "Depois que um professor me convenceu a provar uma aula, viciei", conta a estudante. "Vi que não é um esporte violento. Dá para fazer com técnica e sem agressões."

Segurança. "As alunas também procuram o esporte para ganhar autoconfiança e aprender técnicas de defesa pessoal", destaca o lutador Eduardo Leitão, professor da Companhia Athletica. "Minha mulher, por exemplo, começou a fazer aulas em 2002 para se sentir mais segura andando no centro da cidade, onde tinha de ir a trabalho." Hoje, ela é campeã paulista e pan-americana.

Segundo Leitão, as mulheres acham que é importante saber se defender. "Presenciamos muita violência por aí e elas têm de saber agir em determinadas situações." Lutar ainda é bom para ganhar confiança em uma reunião de negócios ou na hora de conversar com o chefe.

"Uma mulher se sente poderosa quando descobre que pode derrubar e dominar um homem em um tatame. E isso é refletido em seu cotidiano, no trabalho, em relacionamentos", garante Leitão.

A modelo e atriz Marina Abdalla concorda. "É bom saber que eu não sou indefesa e frágil", diz ela, que treina muay thai há três meses na Fórmula do Shopping Eldorado. "É claro que isso não é motivo para sair por aí batendo em todo mundo e reagindo a assaltos. Mas essa segurança traz uma sensação boa."

Glossário

Boxe

Só os socos são liberados nesse esporte, que é muito popular nos Estados Unidos (onde nasceram campeões como Muhammad Ali e Mike Tyson).

Jiu-jítsu

De origem japonesa, ganhou sua versão brasileira com os lutadores da família Gracie. O jiu-jítsu foca os conflitos no chão. Como é bem técnico, o praticante não precisa ser fortão para se dar bem.

Muay Thai

É o boxe tailandês. Além dos socos, são liberados chutes, cotoveladas e joelhadas.

Mixed Martial Arts

O antigo vale-tudo, mas com regras que deixam a disputa menos violenta. Essa modalidade permite o uso de qualquer arte marcial.

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