Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Mulheres engrossam filas em entidade

Em dois dias, 20 haitianas chegaram e passaram a viver em salão na Missão Paz; viagem entre países chega a superar 20 dias

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2015 | 02h01

SÃO PAULO - Quando Muta Zhephirin, de 31 anos, chegou a São Paulo, ela tinha fome. De Rio Branco, no Acre, até a Estação Barra Funda, na capital, foram quatro dias sem comer direito. Na viagem, parava apenas uma vez por dia. Fez a primeira refeição na segunda à noite, quando recebeu um marmitex. Durante a entrevista, segurava um limão. "Foi cansativo demais", resumiu. 

Pelo menos 20 haitianas chegaram entre domingo e anteontem na Missão Paz, no Glicério, na região central de São Paulo. Na bagagem, elas trazem as incertezas sobre o futuro. Aqui, adquirem outra característica: o medo de falar com estranhos. O grupo dorme em dois salões cedidos pela Missão.

"Falam muito do Brasil no Haiti. Falam que tem boas oportunidades", contou Muta, que trabalhava como esteticista. Fã de futebol, disse conhecer os brasileiros por jogadores famosos, como Neymar.

Para arriscar uma vida nova, ela precisou deixar a filha, Stechard, de 6 anos, com a avó. Passaram-se 22 dias desde a última conversa entre mãe e filha, aproximadamente o tempo total da viagem. "Ela ainda nem sabe que eu cheguei. É muita nova, não entende o que está acontecendo", contou a mãe.

A decisão de vir ao País levou três meses. Muta morava sozinha com a menina - a mãe morreu e o pai está nos EUA, mas eles não mantêm contato.

Muta planeja ficar apenas por alguns dias em São Paulo, mas seu objetivo é viajar a Santa Catarina, onde disse ter amigas haitianas. Neste tempo, quer aprender português, já que só fala francês. "Quero trabalhar para trazer minha filha. E, se não der certo, pelo menos voltar com algum dinheiro."

Ajuda. Além dos novos hóspedes, o pátio da Missão Paz tinha ontem ao menos cem pessoas. Muitos já estão no Brasil há algum tempo e vão ao local à procura de emprego. Algumas empresas procuram o local em busca de mão de obra e há filas para que as entrevistas sejam feitas.

Entre os haitianos estava Patrick Diecidonne, de 33 anos. Já empregado como ajudante geral em uma produtora de filmes e vivendo em São Paulo há pelo menos dois anos, ele disse ter ido ao local para ajudar como voluntário. Como fala inglês, auxiliava muitos dos que chegavam a se comunicar. "Muita gente chegou ontem. Vi muitas mulheres", relatou.

Já o DJ Cayes Haiti, de 22 anos, contou que está no Brasil há três anos e veio para encontrar um amigo. "Aqui no Brasil estou ganhando dinheiro. Faço R$ 300 por noite em baladas no Sumaré", contou ele, que disse tocar, principalmente, o estilo techno. Tem até cartão personalizado para divulgar seu trabalho, com as bandeiras do Brasil e de seu país de origem. "A viagem valeu a pena."

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