Mulheres da Vila Mimosa se concentram para Copa

A poucos minutos do Maracanã, reduto de prostituição investe para atrair estrangeiros; garotas de programa esperam faturar alto no Mundial

Thaise Constancio / RIO , O Estado de S.Paulo

18 Maio 2014 | 02h08

A 20 minutos do Estádio do Maracanã, palco da final da Copa, a Vila Mimosa, uma das mais famosas zonas de prostituição do Rio, se prepara para receber torcedores de todo o mundo. A Associação dos Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa (Amocavim) planeja montar um telão na Rua Sotero dos Reis, perto de bares e casas noturnas, para que as "meninas", como as garotas de programa são chamadas, possam assistir aos jogos ao lado dos frequentadores.

Bares já têm bandeirinhas do Brasil e as profissionais do sexo esperam faturar mais ao longo da Copa. Há mais de 20 anos na região, Paula diz acreditar que a movimentação de clientes será maior. "Em outras Copas havia pouco movimento nos dias de jogos do Brasil, mas, por estarmos perto do Maracanã, este ano deve ter mais gente."

Algumas meninas participam de cursos de inglês e espanhol oferecidos pela Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec). "Falando outra língua, vamos conseguir trabalhar como acompanhantes dos gringos e faturar mais", disse Juliana. Segundo ela, que ainda não fala outro idioma, por um dia como acompanhante é possível cobrar R$ 400, sem o programa.

Após morar dez anos na Europa, Juliane aprendeu inglês, espanhol e italiano. Voltou para o Brasil de olho na Copa. "Os gringos são muito desconfiados, mas quando passam a confiar procuram sempre a mesma garota. O faturamento aumenta."

Campanha. Durante os jogos, a Amocavim manterá ações de conscientização sobre saúde da mulher e violência. Com a chegada dos turistas, a associação e a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos farão uma campanha contra o tráfico de pessoas e a erradicação do trabalho escravo.

Para chamar a atenção das mais de 4 mil mulheres que atuam em três turnos, a vila receberá o movimento Gift Box de 12 a 19 de junho. Pelo projeto, "caixas de presentes" serão colocadas em locais de grande circulação, simbolizando o aliciamento dos traficantes de pessoas. Nas caixas haverá relatos de pessoas que foram traficadas, exploradas e escravizadas sexualmente.

Cidade das meninas. A aproximação da Copa do Mundo trouxe à tona um antigo projeto do arquiteto Guilherme Ripardo: a Cidade das Meninas. O espaço vai integrar a sede da Amocavim, centro profissionalizante, posto de saúde, espaço cultural, biblioteca e creche. O Museu do Sexo, que contará a história da zona de prostituição, também integra o projeto.

Para Ripardo, a Cidade das Meninas pode levar a uma "onda positiva" para revitalizar o espaço. "O projeto não exalta o sexo ou o turismo sexual, mas tenta melhorar a área e tratar problemas sociais e de saúde em vez de escondê-los."

O arquiteto ressalta que, apesar de o projeto existir desde 2006, ainda não recebeu nenhuma proposta concreta para execução. "O número de visitantes vai aumentar com a Copa e a Olimpíada. Dará mais visibilidade para que o local seja estudado e visto pelos governantes. Quem sabe essa será nossa oportunidade para conseguir as verbas necessárias?"

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