Ayrton Vignola/AE–24/5/2011
Ayrton Vignola/AE–24/5/2011

Mulher eletricista? Sim, e SP tem as pioneiras

Programa da AES Eletropaulo já formou 41 profissionais desde 2010

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2011 | 00h00

Elas são mulheres, têm entre 18 e 39 anos e encaram sem medo um trabalho de alta voltagem, fios e eletricidade. São 41 e atuam ao lado de 1.761 homens eletricistas. Fazem parte das duas primeiras turmas de mulheres eletricistas do Brasil, formadas pelo Instituto Edison. Desde o ano passado, elas estão trabalhando nas ruas de São Paulo, a serviço da AES Eletropaulo.

Todas moram na Vila Guacuri, bairro da zona sul paulistana, onde funciona um programa social da Eletropaulo em parceria com a empresa Socrel. Em 2010, 111 mulheres se candidataram para trabalhar na companhia elétrica. Apenas 21 foram aprovadas, num processo seletivo que testou suas aptidões. Passaram por treinamento de 165 horas - divididas entre fundamentos teóricos e atividades práticas.

"O trabalho que fazemos é igual ao dos homens", comenta Claudete de Oliveira Corrêa, de 39 anos, integrante da tropa feminina da Eletropaulo. Claudete era dona de casa, mãe de três filhos - dois meninos, de 18 e 13 anos; e uma garota de 16. Viúva há poucos meses, sustenta a família com o novo ofício. "Ela é o homem da casa agora", diz a colega Lilian Moreira Santos, de 31.

"Foi em um cenário de apagão de mão de obra, com a migração de eletricistas para o setor de construção civil, que elaboramos o projeto Mulheres Eletricistas", explica o gerente de Treinamento da Eletropaulo, Denesio de Andrade Carvalho.

Lilian é só sorrisos. "Eu fui atendente de lanchonete e estava desempregada havia dois meses quando fiz a inscrição para a vaga", conta ela. Mas não é só isso. A nova vida refletiu-se também no coração. "Eu era casada (tem dois filhos, de 11 e 4 anos), mas na Eletropaulo conheci o amor de minha vida. Separei e há cinco meses estou namorando (o funcionário William Benvindo, de 29)", revela.

Vaidades. Antes, elas não se atreviam nem a consertar pequenos problemas elétricos de suas casas. Trocar lâmpada? Nem pensar. "Morria de medo de mexer em qualquer coisa", conta Claudete. "Não tinha a menor noção", completa Lilian.

Marcia Domingos de Oliveira, de 30 anos, até tinha certa experiência. O que não significava que fosse bem-sucedida em sua atuação de Professor Pardal (personagem da Disney afeito a invenções). "Uma vez, desmontei um ferro elétrico para consertar. Acabei praticamente montando dois", ri. "Agora sou fascinada. A eletricidade é um vício."

E como fica a vaidade feminina no dia a dia? Brincos, pulseiras, anéis... nem pensar. "Eu entro no carro e já vou arrancando. Tenho pente e espelhinho à mão, para chegar ao cliente, ao menos, com os cabelos em ordem", diz Lilian.

Elas contam que cantadas são frequentes. "Tem cliente que diz que, sendo mulher, posso ir lá cortar a luz todos os dias", admite Lilian, que é responsável por suspender o fornecimento de eletricidade de quem não está com as contas em dia. "Mas também já aconteceu de uma velhinha me receber a vassouradas."

Por norma da Eletropaulo, todos os eletricistas, sejam homens ou mulheres, atuam em dupla. Minoria absoluta, as mulheres sempre têm um colega homem ao lado.

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