Muito mais do que 20 centavos

Se engana quem acredita que a cidade parou por apenas 20 centavos. Embora 20 centavos façam a diferença para milhões.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2013 | 02h02

Na manifestação do Movimento Passe Livre de terça-feira, a unanimidade foi chamar todo cidadão que protestou de vândalo e baderneiro. As duas autoridades da cidade estavam juntas em Paris, o governador do PSDB, Geraldo Alckmin, e o prefeito do PT, Fernando Haddad, com o vice-presidente Michel Temer, do PMDB. Esqueceram as divergências para vender o Brasil a outro evento internacional.

Na França, apresentaram o projeto de São Paulo à Expo 2020, uma prova de que o poder vive num delírio megalomaníaco, ao passo que, quem leva 2h por dia para ir trabalhar, 3h para voltar, em ônibus entupidos e caros e enfrenta 200 km de congestionamento, vive a realidade.

A manifestação nesses dias em São Paulo ganhou o caráter que deveria: uma revolta coletiva contra um Estado que trata o indivíduo como um estorvo: o inimigo. Estado que, em vez de solucionar os problemas da violência, aterroriza, que gasta em estádios, não em metrô.

E, mais uma vez, a PM, o braço armado que garante o poder aos incompetentes, e os blinda contra as revoltas, faz o trabalho que nem sequer o melhor dos marqueteiros conseguiria: une a sociedade contra a violência de quem deve combatê-la e ganha para isso.

Viu-se uma PM tomar o poder. Impedir que manifestantes ocupassem a avenida, ocupando-a. Abrir fogo contra inocentes e jornalistas. Tipificar uma manifestação política como formação de quadrilha.

Não é mais o aumento da passagem a bandeira. Alguns cartazes escritos à mão deram o tom. "O povo não deve temer o governo, o governo deve temer o povo". "Desculpe o transtorno, estamos mudando o País". Pela TV, assistimos à anarquia militar. PMs encurralavam jovens rendidos.

Enquanto pelas redes sociais rodava a foto da repórter Giuliana Vallone, da TV Folha, com o olho sangrando, de cinegrafista levando jato de spray de pimenta, a polícia ocupava a Paulista. Antônio Prata tuitou: "No próximo protesto, que se combine de antemão. A PM vai para praticar atos de vandalismo, e os manifestantes, para tentar contê-los."

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