Mudar o corte no cabeleireiro virou coisa de homem

Enquanto as mulheres têm cada vez mais medo de variar, eles perderam o medo de experimentar e vão de moicanos a franjões

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

13 Março 2011 | 00h00

Moicanos, compridões, volumosos, revoltos, à la Justin Bieber... Os homens andam cheios de ideias na hora de cortar o cabelo. "Enquanto a mulherada quer ficar igual, eles têm variado cada vez mais", resume Celso Munhoz, cabeleireiro de 53 anos do salão Mundorama, da Galeria Ouro Fino, nos Jardins.

Munhoz e seus colegas afirmam que a clientela masculina dos salões nunca esteve tão disposta a experimentar. Isso inclui fazer até escova progressiva, o tal procedimento que hoje nivela - quase - todas as mulheres pelo cabelo e atende ainda pelos nomes de escova marroquina, de chocolate e recondicionamento térmico.

"Os homens, que antes mal entravam nas estatísticas, hoje respondem por 30% do faturamento do salão", conta Alan Albuquerque, que atende no Studio W. À sua frente, o publicitário Maurício Cirillo, de 42 anos, pede um corte inspirado nos "polistas argentinos". "Pratico polo", explica ele, com seus cabelos compridos.

Cirillo lembra que, quando era garoto, não havia possibilidade de adotar penteados de esportistas - jogadores de futebol hoje são outro referencial masculino, de Beckham a Neymar. "O pai da gente ia junto ao barbeiro e só havia um corte: curto."

Penteado pioneiro. Ao lado de Cirillo, o estudante de Direito da Faap Enrico Celico, de 18 anos, gaba-se de ter sido pioneiro no corte à la Justin Bieber (com franjão alisado para frente). "Eu já usava o cabelo assim em 2002", conta. Não que Celico tenha se adiantado a Bieber, que em 2002 tinha apenas 8 anos. Foi Bieber que potencializou o corte já bastante popular.

"Você me deve aquele seu carrão", diz Celico ao cabeleireiro Alan, referindo-se ao número de amigos que ele encaminhou ao salão para fazer o corte moicano que ele usa atualmente (R$ 150). Apesar de aludir a algo chamativo, o corte admite uma versão light, com crista discreta, como a de Celico. O moicano radical fica completo após raspar as laterais.

No caso do fiscal de táxis Paulo Ferreira, de 22, ainda houve um incremento. "Fiz luzes em cima", diz ele, que pagou R$ 25 em um salão na Freguesia do Ó, na zona norte.

"Moicano é démodé", sentencia o cabeleireiro Bruno Cardoso, que também atende no Mundorama. Do alto de seus 24 anos, ele diz que o que se usa hoje é uma mistura de tudo o que já existiu. "Você faz uma revisão do que se fez no passado e desfia bem para tirar o volume."

O médico Paulo Kogake, de 42 anos, aguarda com uma toalha nos ombros sua hora de alisar os fios curtos do cabelo já liso - que ele ainda vai cortar muito curto. E pra que alisar? "Ele enrola na pontinha", explica, fazendo com o dedo, no ar, o caminho irregular que o fio supostamente percorre. Com uma paciência silenciosa, incomum em salões de cabeleireiros, o médico reconhece: "É preciso ser vaidoso, sim." Ele volta a cada 15 dias para refazer o processo.

Seu cabeleireiro, Evandro Ângelo, do salão de Celso Kamura (que atende a presidente da República, Dilma Rousseff), lembra: "Há um tempo, um cliente pediu para ser atendido em uma sala privê porque faria reflexo invertido - processo de tingimento de grisalhos que escurece apenas parcialmente os fios, dando ao conjunto um resultado mais natural. Já na segunda vez, dispensou a sala privê. Percebeu que hoje ninguém fica reparando em homens que se mostram vaidosos."

Segundo Evandro, além de solicitar cortes de cabelos, os homens andam solicitando bons tratos para as barbas. "Eles estão se permitindo muito mais."

O brasileiro demorou para tomar coragem, diz o cabeleireiro Ricardo Cassolari, cuja clientela já foi mais tradicional. "O homem está mais livre. Quando é que, há 30 anos, um adolescente aparecia ditando moda no cabeleireiro?"

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