Daniel Teixeira / Estadão
Daniel Teixeira / Estadão

Esvaziado, primeiro ato contra reajuste da tarifa em SP termina com tumulto e 30 detidos

Cerca de 500 pessoas participaram do protesto. Já o número de PMs empenhados para atuar na passeata chegou a 800. Jovens foram presos após confusão na estação Trianon

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2020 | 18h49
Atualizado 08 de janeiro de 2020 | 10h43

SÃO PAULO -  O primeiro protesto do Movimento Passe Livre (MPL) contra o aumento de R$ 0,10 nas tarifas do transporte público de São Paulo, realizado nesta terça-feira, 7, terminou em tumulto após manifestantes tentarem pular catracas do Metrô; 29 manifestantes foram detidos e liberados após assinar um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO). Esvaziado, o ato aconteceu do Viaduto do Chá até a Avenida Paulista, mas contou com presença maior de policiais do que de participantes.

Tanto organizadores quanto a Polícia Militar informaram que 500 pessoas participaram do protesto. Já o número de PMs empenhados para atuar na passeata chegou a 800. A concentração começou às 17 horas e a passeata transcorreu pacificamente a maior parte do tempo. Já no fim, no entanto, após começar a cair uma chuva forte por volta das 20h30, um grupo de manifestantes entrou na Estação Trianon-Masp, cujas catracas foram cercadas por policiais do Batalhão de Choque para impedir a invasão. Entre eles, havia black blocs.

Dentro da Estação, o grupo continuou gritando palavras de ordem e pedia para pular as cancelas. Com um megafone, um PM avisou aos usuários que o local seria fechado por questões de segurança. Nessa hora, houve uma tentativa de avanço contra a linha policial e os agentes revidaram forçando os escudos.

Manifestantes atiraram pedaços de paus e tinta contra os agentes. Com o tumulto iniciado, o PM do megafone informou que a Estação seria evacuada. Houve correria e empurra-empurra. Acionada, uma equipe do Baep avançou contra ativistas e profissionais da imprensa.

Na saída, placas de publicidade foram depredadas. A polícia usou spray de pimenta e cassetete. Um policial também ameaçou fazer uso da arma de bala de borracha. Do lado de fora, vândalos atiraram garrafas de vidro contra guarnições.

Na Paulista, pessoas que voltava para casa acabaram prejudicadas pelo tumulto. "Preciso pegar o Metrô, não sei o que fazer", dizia uma mulher aos policiais que trancavam a entrada. Outra comentou: "Se é por causa da manifestação não vou xingar: eles estão corretos".

A Secretaria da Segurança Pública disse que um major da PM foi ferido por um estilhaço de vidro, tendo sido socorrido ao Hospital das Clínicas. "Após orientação dos PMs, os manifestantes foram conduzidos para a área externa da estação, que foi depredada. Um grupo com aproximadamente 30 manifestantes foi detido e encaminhado ao 78.º DP, onde a ocorrência está sendo registrada", declarou a pasta. Durante a operação, foram apreendidos coquetéis molotov, recipientes com material inflamável entre outros objetos.

Em sua página oficial, o MPL diz que 22 foram detidos "arbitrariamente", pois "somente tentavam voltar pra casa sem pagar tarifa!". 

A Companhia do Metropolitano disse que os manifestantes "danificaram vários equipamentos da estação, entre eles uma escada rolante, luminárias, placas de propaganda e ainda picharam portas e bloqueios da estação". O tamanho do prejuízo está sendo contabilizado. 

Protesto mirou Covas, Doria e Bolsonaro

À tarde, os manifestantes se reuniram em frente ao prédio da Prefeitura, no Viaduto do Chá. "Bem na virada do ano, o prefeito e o governador anunciaram o aumento da tarifa de R$ 4,30 para R$ 4,40. Cada centavo a mais exclui mais gente do transporte que deveria ser público", disse Gabriela Dantas, do MPL. "Hoje é só a primeira (manifestação), isso é o começo de uma jornada de luta. A gente vai seguir na rua até conseguir a revogação do aumento."

Entre as pautas, o movimento também protestou contra a redução de linhas e viagens de ônibus prevista em licitação da gestão Bruno Covas  (PSDB). "Não vamos pagar mais para circular menos", diz Gabriela. No ato, havia bandeiras de movimentos estudantis, como a UNE (União Nacional dos Estudantes) e Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), e de grupos políticos, como PSOL, PSTU, PCR.  

Pela PM, dois mediadores ficaram responsáveis por falar com os manifestantes. Até pouco antes de o ato sair, o percurso não havia sido divulgado. "Sem o itinerário o comandante não vai deliberar a saída do movimento", disse um dos mediadores. "A gente entende que não precisa informar o percurso porque a rua não é mais dos policiais ou dos carros do que das pessoas", afimrou Gabriela.

Ainda durante a concentração, houve outro momento de tensão. Cerca de 30 policiais foram revistar duas mulheres do MPL. Ativistas reclamaram de truculência e acusaram os PMs de estarem pisando nas faixas confeccionadas para o protesto. Nas mochilas das jovens, os agentes só encontraram kits de primeiros socorros.

Cercado por policiais, a passesata seguiu em direção ao Largo do Paiçandu e passou pela Avenida 9 de Julho, onde adeptos da tática black bloc se juntaram ao grupo. Entre os gritos, os manifestantes cantavam:"Ei, Covas, vem pegar busão", "Fora, Doria" e "Fora, Bolsonaro". Pelo combinado com a PM, o ato deveria terminar na altura do Masp, mas ao chegar à Paulista os manifestantes caminharam um pouco em direção à Consolação. Depois, conseguiram furar o cerco e passaram a ocupar as faixas do sentido Paraíso. Mascarados correram na primeira tentativa de invadir a Estação Trianon-Masp, mas policiais usaram cassetetes para inicialmente impedir. Com a chuva e a situação pacificada naquele momento, todos acabaram entrando na Estação.

Reajuste está abaixo da inflação, diz secretaria

Em nota divulgada nesta segunda-feira, 6, a Secretaria Estadual de Transportes afirma que o reajuste está abaixo da inflação.  “As novas tarifas foram encaminhadas para os presidentes da Câmara Municipal e para a Assembleia Legislativa e mantêm as atuais gratuidades existentes. Diariamente 8,3 milhões de passageiros são transportados nas 13 linhas disponíveis no Metrô e na CPTM e 8,8 milhões nos ônibus da capital.”

Já a Prefeitura de São Paulo afirma que, desde o início de 2017, a cidade já recebeu mais de 4.800 ônibus novos, “o que significa a renovação de mais de 34% da frota de aproximadamente 14 mil ônibus”. “Vale ressaltar que cerca de 3,6 mil destes novos veículos foram entregues nos últimos dois anos, durante a gestão Bruno Covas”, diz o texto.

O aumento das tarifas a passagem dos ônibus municipais de São Paulo, do Metrô e dos trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) começou a vigorar no dia 1º de janeiro. O argumento para o reajuste foi o crescimento dos custos operacionais dos sistemas. O aumento, de 2,33%, ficou abaixo dos índices de inflação apurados ao longo de 2019, que passaram dos 3%.

No caso dos ônibus, se passageiro usar bilhete único (que é obtido mediante cadastro na Prefeitura), a passagem paga com o cartão dá direito a embarque em dois coletivos diferentes em um intervalo de três horas. Caso o pagamento seja em dinheiro, os R$ 4,40 dão direito a uma única viagem.

Já no caso do Metrô e dos trens, as transferências entre os sistemas de trilhos é gratuita. O valor pago dá direito a usar quantas linhas o passageiro precisar. Mas a integração com os ônibus é tarifada.

A tarifa integrada, que dá direito a uma passagem de trem e/ou de metrô e a uma passagem de ônibus, subiu de R$ 7,48 para R$ 7,65, um reajuste de 2,27%. Caso pague os dois meios de transporte com dinheiro, o valor é da soma das tarifas, ou R$ 8,80.

Passageiros que carregaram seus cartões do bilhete único até o dia 31 de dezembro terão descontados os valores antigos da passagem até os créditos se esgotarem.  

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