Motos chegam em áreas inacessíveis até para bombeiros

Especialistas em trilhas arriscadas passam por desmoronamentos para transmitir informações e transportar mantimentos

Bruno Boghossian e Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2011 | 00h00

Acostumados a terrenos acidentados, passagens estreitas e montanhas de lama, motociclistas praticantes de trilhas integraram as primeiras equipes que chegaram a localidades isoladas por deslizamentos na região serrana do Rio. Vestidos com macacões e munidos de equipamentos de segurança, como se estivessem em competições, os voluntários carregavam mochilas com água e alimentos para moradores que ficaram dias sem contato com o resto da cidade.

"Antes da chegada dos helicópteros, as motos foram cruciais para ajudar a população de Santa Rita", avalia Leandro Limongi, que fez parte de uma equipe de 250 trilheiros voluntários em Teresópolis. "Apesar da experiência do grupo, havia muitos deslizamentos de terra e precisávamos levantar a moto nos braços para seguir em frente."

Muitos deles já conheciam a região, já que Teresópolis recebe campeonatos da modalidade. Mas os obstáculos eram piores do que os encontrados pelos motociclistas em trilhas tradicionais. Percursos que duram 1h30 chegaram a levar 9 horas.

"Se encontrávamos um morador que precisaria andar até 5 horas para voltar para casa, dávamos carona sem pensar duas vezes. As motos não são próprias para isso, mas a gente faz o que pode em uma hora dessas", afirma Limongi.

Em Nova Friburgo, os empresários Alexandro Americano, de 48 anos, e Rafael Alves, de 37 , e o sacoleiro Hudson Knopp, de 23, usam suas motos para chegar a lugares onde, por vezes, nem helicópteros ousam pousar. Alves - que perdeu duas sobrinhas na enxurrada - conta que esteve em missões de resgate em praticamente toda a cidade. A única condição para aceitar as tarefas é que o local seja "inatingível".

Internet. O desejo de atender comunidades que perderam tudo também uniu um grupo de voluntários que só se conhecia pela internet. Aproveitando uma rede formada por 145 mil pessoas no Twitter, os responsáveis pelo perfil @leisecarj - criado para alertar motoristas sobre blitze da Lei Seca montadas no Rio - conseguiram arrecadar 110 toneladas de donativos.

Nos primeiros dias após a tragédia, os voluntários montaram uma base para arrecadar donativos na capital fluminense e em um ponto de distribuição num clube de Teresópolis. Com sete linhas de montagem de kits de mantimentos e uma estrutura quase industrial, distribuíram material para dezenas de comunidades, com o apoio de helicópteros de Polícias Militares de três Estados.

A solidariedade deu origem a uma parceria inusitada: integrantes do @leisecarj, que criticam as blitze montadas no Rio, trabalharam ao lado dos funcionários do governo responsáveis pelas operações de trânsito.

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