Motoristas relatam momentos de terror

Carreta evitou tragédia, ao segurar carros e impedir que despencassem na Serra do Mar

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2013 | 02h04

O terror tomou conta das pessoas que atravessavam a Rodovia dos Imigrantes quando a enxurrada ameaçou arrastar carros, caminhões e ônibus para fora da estrada na noite de anteontem, em um desfiladeiro na Serra do Mar. Medo da morte, impotência e desespero marcaram os sobreviventes do desastre entre os túneis 10 e 11 da pista norte. Uma carreta, que virou em "L", segurou a avalanche de veículos e evitou uma tragédia maior.

"Você vê um tronco passando e parece brincadeira. Mas daí, de repente, perde o controle de tudo. Estava chovendo mais do que o normal, mas nunca imaginaria que fosse acontecer aquilo", afirmou o engenheiro João Hohendorff, de 36 anos. "Fiquei entre um caminhão e um ônibus. Poderia ser pior? Poderia, mas Deus não permitiu."

Segundo o taxista Leonardo Bressan Neto, de 58 anos, foi tudo muito rápido. "A lateral do túnel estava despejando muita água e cascalho. Aí, do nada, desceu o morro. Tronco, lama, pedra, tudo. Foi só o tempo de pular uma mureta para me proteger", disse. "Ainda voltei depois para socorrer outras pessoas."

A carreta de uma cervejaria serviu de barragem e evitou que mais carros fossem carregados. "Foi acumulando, encobrindo e formou um dique de barro, pedra e lama na frente do caminhão. Depois, as pessoas começaram a correr, desesperadas", disse o dono de transportadora Francisco Vitor Beltramini, de 51, que voltava de Santos para Araçatuba.

"Quando parou de descer a enxurrada, o pessoal tentou liberar a saída, tirando paus e pedras do caminho. Veio todo mundo descendo, por 4 km, debaixo de chuva pesada. De mãe carregando bebê de colo até pessoas mais velhas, todas a pé", disse o supervisor de manutenção Marco Túlio Marcelino, de 42 anos, que retornava de Santos para São Paulo, onde mora.

Segundo o carreteiro Irineu Anderson Leme Vieira, de 47, o volume de água chegou à altura do para-brisa de seu caminhão. "A carroceria pulava com as pedras que passavam debaixo dela. Ouvi um pessoal gritando 'tem gente presa lá'. Acho que era a mulher que morreu."

Com a mulher e a filha de 11 anos, o encarregado Benedito Emílio de Andrade, de 68, também viveu momentos de terror. "A enxurrada quebrou o vidro do meu carro. Minha mulher e minha filha ficaram desesperadas. Depois que elas conseguiram sair, me salvei passando por cima dos outros carros até chegar à boca do túnel. Daí, voltei para tentar ajudar quem precisava."

Já o taxista Antonio de Melo, de 66, contou que a água só não entrou em seu carro porque ele ficou por cima dos outros. Sou caminhoneiro também, já rodei em tudo quanto é lugar e nunca vi uma coisa dessas. Só estou de pé por Deus. Era para já estar em outro mundo."

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