Motoristas que matam em acidentes também são atingidos

Em 2007, foram registrados 774 boletins de acidentes, mas ninguém foi preso

Diego Zanchetta e Rodrigo Brancatelli, de O Estado de S. Paulo,

18 de setembro de 2008 | 00h06

Na tarde do dia 7 de agosto, a advogada Yolanda de Salles Freire Cesar tentou fazer uma conversão proibida na Avenida Sumaré com o carro quando acertou a moto do estudante de Engenharia Elétrica Bruno Cavaglieri Neto, de 21 anos. Boca, como era chamado pela família, estava noivo de Bruna, com quem namorava havia quatro anos. Ele morreu no dia seguinte, em uma sala da UTI do Hospital das Clínicas, em decorrência de politraumatismo. O lado perverso das conversões proibidas, das disputas por espaço e da pressa diária no trânsito paulistano não atingiu apenas Bruno Cavaglieri Neto e sua família - Yolanda de Salles Freire Cesar, de alguma forma, também ficou marcada pelo acidente que tirou a vida do garoto. "É claro que marca, que traumatiza", diz a mãe da advogada, que foi no enterro e na missa de 7º dia de Bruno e ainda ajudou Yolanda a acompanhar a missa de 30º dia. "Nós mantemos contato com a família do Bruno, eles são muito espirituais, não ficou uma briga para saber de quem era a culpa." Yolanda tenta hoje retomar a sua vida. Todo dia, é obrigada a passar pela Avenida Sumaré, onde aconteceu o acidente. Todo dia, é obrigada a lembrar do que aconteceu. A advogada mal consegue falar sobre a tragédia sem tropeçar nas palavras e chorar. "É muito triste", diz. "Só consegui melhorar por causa do lado espiritual. Fui a um centro espírita para tentar entender por que as coisas são assim. Se pudesse... A gente tenta aprender a lidar com isso, mas é muito difícil." Um mês e meio depois do acidente, o boletim de ocorrência sobre o caso continua no 23º DP, esperando laudo pericial e croqui do local. Nem a advogada, que continua dirigindo o carro, nem nenhuma outra testemunha chegou a ser ouvida pela polícia. E não há prazo para o inquérito ser concluído.  No ano passado, exatos 774 boletins foram lavrados por homicídio culposo por acidente de trânsito, como o caso de Bruno Neto. E, da mesma forma, ninguém foi preso. "Só conheço um caso no Espírito Santo de alguém que foi preso por matar no trânsito", diz o presidente da Comissão de Trânsito da Ordem dos Advogados do Brasil, Cyro Vidal. "Em São Paulo, nunca ouvi falar disso. O que temos aqui são penas alternativas. Matou alguém? Faz trabalho voluntário para compensar. Por que matar com carro é diferente de matar com uma arma?" Congresso Na primeira semana de outubro, na volta do "recesso branco", a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado promete analisar um projeto de lei para endurecer as penas para motoristas envolvidos em acidentes de trânsito com vítimas. O texto também prevê que o juiz seja comunicado imediatamente pela polícia dos fatos para suspender a habilitação do motorista. Além disso, as penas não poderão ser substituídas por prestação de serviços comunitários. Se aprovado, o projeto, que já tem parecer favorável, seguirá diretamente para a Câmara. Nos casos de acidentes considerados crimes culposos (sem intenção), o projeto prevê um aumento nas penas - de 2 a 4 anos de prisão, como é atualmente, para de 3 a 5 anos.

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