Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Motoristas e cobradores de ônibus de São Paulo entram em greve; mais de 6 mil ônibus estão parados

Cerca de 675 linhas são afetadas pela greve nesta quarta-feira; categoria reivindica cinco melhorias cujo prazo de negociação expirou na última quinta; rodízio de veículos está suspenso

Paulo Favero, Jayanne Rodrigues, Gonçalo Junior e João Ker, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 10h37
Atualizado 29 de junho de 2022 | 14h36

Motoristas e cobradores de ônibus entraram em greve à meia-noite desta quarta-feira, 29, na capital paulista. A paralisação foi deflagrada pelo Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo (Sindmotoristas). Essa é a segunda vez que a categoria paralisa os serviços em menos de um mês. Com os ônibus na garagem, muitos terminais ficaram vazios. Há circulação de veículos menores dentro dos bairros. O trânsito estava acima da média pela manhã e estações de trem e metrô ficaram lotadas. 

A Prefeitura suspendeu rodízio de carros na capital ao longo da quarta-feira, permitindo a circulação dos veículos com placas de finais 5 e 6. Faixas exclusivas e corredores de ônibus também estão liberados para circulação de carros de passeio enquanto durar a greve. A paralisação tem previsão para durar até 24 horas e já afeta 675 linhas diurnas e mais de 6 mil ônibus, que seriam utilizados por cerca de 1,5 milhão de passageiros no pico da manhã, segundo a SPTrans. De acordo com a pasta, durante a madrugada, 88 linhas, de 150, ficaram inoperantes. 

O pior momento ocorreu às 9h com 146 quilômetros de lentidão de acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). O índice foi superior aos 111 km de lentidão da quarta-feira, 22. Em relação à greve do dia 14, porém, o índice foi inferior (146 km a 164 km). Até as 10h, a média de lentidão estava 29% abaixo da registrada no dia 14, de acordo com a CET. 

Estações de trem e metrôs apresentavam grande movimento nesta manhã. O Estadão registrou uma fila enorme no terminal Varginha, na zona sul, diante da única linha de ônibus que estava funcionando por volta das 7h. 

A partir das 4h, a operação em todas as garagens dos grupos estrutural e de articulação regional foi interrompida, exceto na Express, segundo a SPtrans. Para quem utiliza as vans do Atende+, que transportam pessoas com deficiência de alto grau de severidade, o serviço segue com funcionamento padrão. O Tribunal de Justiça havia determinado que, nos horários de pico, 80% da frota estivesse em operação. 

Uma audiência com o sindicato patronal está agendada para as 15h na Justiça do Trabalho. Às 16h, uma nova assembleia está convocada para decidir sobre a manutenção da paralisação.

Em entrevista à Rádio Eldorado, Valmir Santana, presidente do Sindmotoristas, afirmou que há adesão total das empresas que operam o sistema estrutural. As linhas locais, com micro-ônibus de menor capacidade, circulam normalmente.

Na região central da cidade, os ônibus praticamente não passavam nos corredores e o Terminal Bandeira, um importante ponto de distribuição de passageiros para o Parque Dom Pedro e zona sul da capital, estava vazio. Desde a meia-noite nenhum ônibus apareceu por lá. "Atenção senhores usuários. As linhas deste terminal não estão funcionando", dizia a gravação pelo alto falante a todo momento.

A alternativa dos usuários foi tentar pegar um carro por aplicativo para chegar ao trabalho. Mas reclamaram da elevação dos preços. A assistente administrativa Maria Augusta Santos, de 32 anos, mora no bairro Limoeiro, na zona leste. Para chegar ao trabalho, no Aricanduva, ela fez simulações pelo aplicativo, mas acabou desistindo. O percurso que normalmente custa R$ 20 sairia pelo dobro do valor. Nas redes sociais, há relatos de pessoas se queixando dos altos valores. "Greve em SP de novo? Parece que o preço do Uber dobrou", escreveu o internauta Ney Ribeiro. 

Kátia Ramos, vendedora em uma loja, pegou carona com o marido até a Estação Corinthians Itaquera do Metrô. Ela conseguiu chegar ao Terminal Bandeira, mas não havia ônibus para seguir viagem. "Eu sabia da greve, mas arrisquei porque meu patrão falou para eu me virar", disse.

Nenhuma das 23 linhas que circulam pelo terminal estava operando e ela precisou pedir um Uber para ir até Santo Amaro. "Geralmente custa cerca de R$ 22 a corrida até lá, mas agora está dando R$ 40", disse apressada para tentar chegar no seu trabalho no horário.

Itaquera

No Terminal Itaquera, na zona leste da cidade, apenas uma das seis empresas de ônibus que circulam por lá ficou sem carros à disposição da população. A Metrópole Paulista, que atua na zona leste com 7 linhas, incluindo para importantes localidades como Vila Carrão e Ermelino Matarazzo, não circulou logo cedo. Na plataforma D, um cartaz já avisava as pessoas da greve: "inoperante".

Mas como o terminal é abastecido por outras empresas, que estavam circulando normalmente, e por peruas e lotações, as pessoas estavam conseguindo chegar à estação do Metrô Corinthians Itaquera. Por precaução, muita gente acordou um pouco mais cedo com receio de perder o transporte para o trabalho.

Foi o caso de Alexandre, que preferiu não dar seu sobrenome. "Eu vim de Guaianases e saí 5h30 de casa, pois achei que não teria transporte, mas logo que cheguei aqui no terminal vi que tem um monte. Eu vou para Arthur Alvim e está mais tranquilo do que há algumas semanas, quando teve a outra greve", disse o senhor de 52 anos.

As corridas de aplicativos também ficaram um pouco mais caras na região, por causa do anúncio de greve, e o trânsito na Radial Leste, uma importante via da zona leste, em direção ao centro, ficou pesado logo cedo, pois muitas pessoas optaram por utilizar automóveis para o deslocamento. A estação Corinthians Itaquera do Metrô também estava cheia, mas dentro da normalidade para o horário.

Negociação

"A Prefeitura de São Paulo, por meio da SPTrans, lamenta a paralisação de linhas de ônibus municipais e espera que trabalhadores e empresários cheguem em breve a um acordo para que a população de São Paulo não seja ainda mais penalizado", afirmou a SPTrans em nota. A secretaria informou que 17 das 40 garagens cadastradas no sistema estão sendo acompanhadas. 

Segundo o secretário geral do Sindmotoristas, Francisco Xavier da Silva, o Chiquinho, a greve foi aprovada pela categoria após as empresas de ônibus não terem atendido nem negociado cinco cláusulas que ficaram pendentes desde a última paralisação, há duas semanas. Ele afirmou que o prazo para uma contraproposta se esgotou na última quinta-feira, 23.

Hoje, os motoristas e funcionários reivindicam que a hora do almoço seja remunerada; o pagamento das horas extras a 100%; a participação nos lucros e resultados (PLR); o "fim das monoculturas do setor de manutenção"; e a promoção para o setor.

No último dia 14, a categoria também realizou uma greve que durou da meia-noite às 15h20 daquela terça-feira. A paralisação foi considerada legal pela Justiça do Trabalho e resultou em uma negociação entre o sindicato dos motoristas e a entidade que representa as empresas, que estabeleceu o pagamento do reajuste de 12,47% contado a partir de maio. 

À época, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), disse que iria estudar se o repasse financeiro para que as empresas banquem o aumento das categorias viria de maior subsídio do Município ao setor ou de aumento da tarifa, hoje em R$ 4,40. "Vai depender da quantidade de passageiros. Se entra bastante passageiro, aumenta a receita e diminui a diferença para dar o subsídio", disse ao Estadão.  

Em nota enviada à reportagem, o sindicato patronal, representado pela SPUrbanuss, disse que "lamenta mais essa paralisação dos motoristas e cobradores de ônibus, com terríveis consequências para a mobilidade da população". A entidade também cobrou que os profissionais "não penalizem os passageiros" e cumpram a determinação adotada pela Justiça na última greve, de colocar em operação 80% da frota nos horários de pico.

Por meio da SPTrans, a Prefeitura também disse lamentar a greve e afirmou ter acionado a Justiça do Trabalho para que aumente o valor da multa diária de R$ 50 mil caso a frota de ônibus disponíveis seja menor que 60% ao longo do dia e de 80% nos horários de pico. A medida foi estipulada inicialmente por uma liminar emitida no último dia 30.

"A gestora irá monitorar a frota desde o primeiro minuto da madrugada para informar os passageiros de São Paulo por seus canais oficiais sobre a situação de momento", comunica a SPTrans, que diz também estar "acompanhado a negociação entre empresários e trabalhadores" e "espera uma breve resolução entre as partes, para que a população de São Paulo não seja penalizada".

Além da suspensão do rodízio de veículos, a Prefeitura também vai liberar as faixas exclusivas e corredores de ônibus para a circulação de carros de passeio enquanto durar a greve. A Engenharia de Tráfego da CET manterá o monitoramento constante em ruas e avenidas da cidade, visando manter as condições de fluidez das vias.

Continuarão valendo normalmente o rodízio de placas para veículos pesados (caminhões) e as demais restrições: Zona de Máxima Restrição à Circulação de Caminhões (ZMRC) e a Zona de Máxima Restrição ao Fretamento (ZMRF). A Zona Azul também funcionará normalmente.

Relação de empresas com a operação paralisada em suas garagens:

- Santa Brígida (zona norte)

- Gato Preto (zona norte)

- Sambaíba (zona norte)

- Viação Metrópole (zona leste)

- Ambiental (zona leste)

- Via Sudeste (zona sudeste)

- Campo Belo (zona sul)

- Viação Grajaú (zona sul)

- Gatusa (zona sul)

- KBPX (zona sul)

- MobiBrasil (zona sul)

- Viação Metrópole (zona sul)

- Transppass (zona oeste)

- Gato Preto (zona oeste)

Relação das empresas operando normalmente:

- Norte Buss (zona norte)

- Spencer (zona norte)

- Express (zona leste)

- Transunião (zona leste)

- UPBUS (zona leste)

- Pêssego (zona leste)

- Allibus (zona leste)

- Transunião (zona sudeste)

- MoveBuss (zona leste)

- A2 Transportes (zona sul)

- Transwolff (zona sul)

- Transcap (zona oeste)

- Alfa Rodobus (zona oeste)

A Prefeitura informou que continuam valendo normalmente o rodízio de placas para veículos pesados (caminhões) e as demais restrições: Zona de Máxima Restrição à Circulação de Caminhões (ZMRC) e a Zona de Máxima Restrição ao Fretamento (ZMRF). A Zona Azul também funcionará normalmente.

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