TABA BENEDICTO / ESTADAO
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Motoristas de ônibus aprovam greve em São Paulo para esta sexta; Prefeitura suspende rodízio

Após manifestações realizadas nesta quinta, sindicato voltou a se reunir e aprovou paralisação total para esta sexta. Ônibus retomaram a circulação nesta noite, mas deverão parar na madrugada. Justiça determina 70% da frota nos picos

Gilberto Amendola, Paula Felix e Thiago Lasco, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 17h28
Atualizado 06 de setembro de 2019 | 12h20

SÃO PAULO - O Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo (Sindmotoristas) aprovou no fim da tarde desta quinta-feira, 5, uma paralisação geral do serviço de ônibus na capital ao longo desta sexta-feira, 6. A decisão foi tomada após um dia de mobilizações nesta quinta, que chegou a fechar 21 dos 30 terminais da cidade e afetou o trânsito em diversas partes da cidade. A Prefeitura decidiu suspender o rodizío de veículos na tarde desta quinta e nesta sexta; o metrô e a CPTM informaram que terão operação reforçada diante da expectativa de aumento de passageiros. 

 

Na assembleia do sindicato, foi informado que o serviço foi retomado na integridade nesta quinta, "para levar o trabalhador para casa", e que a paralisação terá início a partir da meia-noite. O presidente interino do sindicato, Valmir Santana da Paz, disse ter saído "entristecido" da reunião com a Secretaria Municipal dos Transportes. "Nenhuma das nossas questões foi resolvida. Não vamos deixar trabalhadores perderem seus empregos. Não vamos rodar amanhã (sexta)", disse. 

Na noite desta quinta, a Prefeitura informou que conseguiu junto ao Tribunal Regional do Trabalho (TRT) decisão favorável para aumentar a circulação da frota nesta sexta. Segundo a administração municipal, em razão da característica de serviço essencial, houve a determinação para que se mantenha o funcionamento de no mínimo 70% da frota nos horários de pico (6h às 9h e 16h às 19h) e de 50% nos demais horários, sob pena de multa de R$ 100 mil por dia em caso de descumprimento.

O objetivo da manifestação iniciada nesta quinta, segundo os motoristas, é protestar contra o que chamam de "desmonte" do setor, com uma suposta redução de frota, além de cobrar o pagamento relativo à participação nos lucros e resultados (PLR) por parte das empresas. De acordo com a entidade sindical, havia transferência desse dinheiro prevista para esta quinta, o que não teria ocorrido.

O presidente licenciado do sindicato e deputado federal Valdevan Noventa (PSC-SE), disse que a decisão de paralisação é o "começo de uma batalha". "Precisamos agir com estratégia e inteligência. Hoje (quinta), os motoristas levam os trabalhadores para casa, mas a partir da meia noite, nenhum ônibus vai rodar. A partir das 8h (desta sexta), vamos trazer os trabalhadores da categoria para um protesto na frente da prefeitura", declarou. Ele disse que a paralisação seguirá por tempo indeterminado até que a Prefeitura decida negociar com a categoria. 

De acordo com o Sindmotoristas, a categoria è contrária à redução de 1,5 mil veículos da frota - sendo que 450 desses ônibus já foram tirados de circulação. A mudança no sistema, ainda segundo a entidade, levaria à demissão de um contingente entre 6 mil e 8 mil funcionários do transporte público.  Procurada, a Prefeitura ainda não se manifestou sobre as reivindicações da categoria. 

A São Paulo Transporte (SPTrans) informou que a operação de ônibus nos terminais urbanos retornou gradativamente a partir do início da noite. A Companhia do Metropolitano informou que, caso a greve se concretize, será antecipada a estrutura para o horário de pico da manhã com frota total de trens. "Manteremos essa estratégia enquanto houver necessidade", disse pelo Twitter. Por conta do fechamento de terminais nesta quinta, a companhia informou que já havia reforçado o quadro de funcionários "para um melhor atendimento aos passageiros".  

Passageiros foram pegos de surpresa

A mobilização teve início de manhã, quando a categoria fez uma caminhada da sede do sindicato, na região central, até o prédio da Prefeitura. A partir do meio-dia, motoristas, cobradores e profissionais da manutenção iniciaram a paralisação. Inicialmente, os veículos foram estacionados no entorno da Prefeitura, mas outros ônibus foram parados em mais partes da região central da cidade.

Ao longo do dia, a paralisação dos funcionários dos ônibus pegou motoristas e passageiros do transporte público de surpresa. Corredores de ônibus, como as avenidas 9 de julho e 23 de maio, além da Rua da Consolação, ficaram travados em alguns momentos do dia. Nos pontos de ônibus, passageiros se perguntavam sobre a paralisação. 

Enquanto os ônibus não retomavam totalmente a circulação na tarde desta quinta, os usuários improvisavam jeitos de retornar para casa. À espera da linha Cohab Educandário, na região da República, no centro, cinco pessoas que não se conheciam até então tiveram tempo de fazer amizade e estavam articulando um plano para dividir um Uber, já que iriam na mesma direção. Parte desse grupo recém-formado, a copeira Edineide de Jesus, 33, havia saído do trabalho na Vila Olímpia de trem até o terminal Pinheiros e precisava continuar viagem até sua casa no Jardim João XXIII. "Amanhã nem saio de casa, a menos que a empresa pague o Uber. Não vou ficar no prejuízo. Já coloquei isso para minha supervisora no nosso grupo de whatsapp."

No terminal parque Dom Pedro, também na região central da cidade, a paralisação teve início por volta das 12h e durou toda a tarde. Os ônibus começaram a retomar o serviço apenas às 17h30. Às 18h10, o acúmulo de passageiros nas plataformas já havia diminuído sensivelmente. Não foram registrados incidentes.

A empregada doméstica Maria Raimunda Martins, 65 anos, conseguiu tomar ônibus em Perdizes, na zona oeste, saindo da casa onde trabalha, até a rua Pedroso de Morais. De lá, caminhou até o terminal Pinheiros, onde às 16h45 já aguardava por duas horas e meia por uma condução incerta. A missão era voltar para casa no Jardim Ângela, extremo sul da capital, "bem depois da Guido Caloi".

Seguir viagem com o trem da CPTM seria uma opção, mas não para ela. "Como tenho pressão alta, tenho medo de pegar esse trem e passar mal. É lotado demais", explicou. Transporte por aplicativo, então, nem pensar. "Daria R$ 100 (a corrida). A gente até tem um dinheirinho, mas é para comprar mistura, não para pagar Uber." No terminal Pinheiros, também na zona oeste, filas de ônibus fechados e vazios se espraiavam pelas ruas do entorno. Linhas da Empresa Metropolitana de Trens Urbanos, do Estado, também funcionaram com atrasos durante a quinta-feira. 

Cidade tem trânsito acima da média, com 130 km de lentidão

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou lentidão acima da média na noite desta quinta na cidade de São Paulo. Dados da CET mostram que, às 19h, 130 km de vias monitoradas tinham congestionamento - um total de 868 km são monitorados pelo órgão municipal. O número supera os 105 km que geralmente são observados no pico da noite. Desde as 17h, a lentidão na capital se encontra acima da média.

As zonas sul (39 km) e a oeste (34 km) liderevam, às 19h, como regiões da cidade onde o trânsito era mais difícil. Por via, o tráfego era pior na Marginal do Tietê, na altura da Casa Verde, e na Marginal do Pinheiros, na região da Cidade Jardim. A 9 de Julho e a Bandeirantes também não tinham fluxo livre no retorno para casa nesta noite.

Paralisação aprofunda dificuldades da Prefeitura no setor de transporte

A paralisação dos motoristas ocorre no momento em que a Prefeitura atua para acelerar a licitação do novo sistema de ônibus. O processo, que está na Justiça desde 2013, discute sobre a duração do contrato das empresas. 

Em agosto, o Tribunal de Justiça de São Paulo considerou inconstitucional a lei que prevê contratos de 20 anos com as empresas de ônibus da cidade. Com a decisão, voltou a vigorar uma lei de 2001 que prevê até 15 anos de contratação.

O sindicato das empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo (SPUrbanuss) cobra um ação rápida da Prefeitura  para reverter a decisão do TJ - tendo como argumento o fato de estar operando com contratos emergenciais e, portanto, com inseguranças jurídicas. 

As empresas de ônibus também estariam se sentindo ameaçadas pela participação dos aplicativos de carro na cidade de São Paulo - combinada com a redução de rotas. A previsão de uma queda na arrecadação é parte do discurso dos empresários.

Sobre a PLR, que deveria ser paga até esta quinta, o sindicato das empresas diz que está tentando negociar o parcelamento desse pagamento com sindicato dos motoristas, mas que a categoria exige "conversar com o prefeito Bruno Covas".

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