Motorista é culpado em 26% dos atropelamentos em São Paulo

Cidade contraria tendência e vê crescer número de pedestres mortos, a maioria por invasão de calçadas

Fabiane Leite, do Estadão,

23 de setembro de 2007 | 20h19

Dez anos depois da entrada em vigor do Código de Trânsito Brasileiro, 76% dos atropelamentos fatais investigados pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) em São Paulo no ano passado ocorreram em travessias "ao longo da via", e não em cruzamentos. Mas, em 26% do total de casos, a culpa não foi do pedestre: automóveis desgovernados invadiram canteiros centrais ou calçadas.   Leia mais sobre o assunto no Estado desta segunda-feira, 24.    Quem é o principal culpado pelos atropelamentos em SP?      A CET fez a apuração porque, embora em nível nacional já exista pelo menos uma estabilização nos atropelamentos fatais, na capital a tendência foi inversa entre 2003 e 2005.   Houve pequena melhora em 2006, mas a companhia considera a situação preocupante e promete tomar medidas como a mudança no tempo dos semáforos.   Um cruzamento de dados do Ministério da Saúde e da Fundação Seade mostra que a capital teve aumento da curva de atropelamentos fatais entre 2003 e 2005, distanciando-se do resto do País (Veja quadro). A taxa de mortes por 100 mil habitantes em 2005, de 5,8, foi maior que a nacional e a do Sudeste, equiparava-se à do Norte e só perdia para as do Sul e Centro-Oeste.   De 2004 para 2005, houve aumento de 6% do número absoluto de mortes na cidade - a taxa por 100 mil habitantes ainda não foi calculada. Em 2006, foram 734, ou 2 por dia, uma redução pequena de 2%, em números absolutas. "Os números preocupam e merecem atenção", diz o diretor de Operações da CET, Adauto Martinez.   Para desvendar os motivos da tendência de alta, a CET investigou diretamente 70 atropelamentos fatais em 2006. A alta incidência de casos de pessoas atingidas longe dos cruzamentos indica um misto de impaciência, imprudência ou dificuldades para fazer a travessia em locais adequados. A maior parte das mortes ocorreu entre meia-noite e 6 horas, horário de menor fiscalização.   A desatenção - do motorista, no caso - ficou evidente num episódio ocorrido quinta-feira, quando o Estado acompanhou o trabalho do Corpo de Bombeiros, que faz o resgate em atropelamentos. Gilberto Moraes, de 55 anos, estacionou o carro na Rua Benedetto Bonfigli, via íngreme da Casa Verde, zona norte, mas o veículo desceu e atingiu sua irmã, a professora Ruth Moraes, de 50 anos - que, por sorte, só teve ferimentos leves. "Não tenho culpa. Parei o carro e ele desceu", disse Rodrigues.   "Já é a quarta vez que um carro desce desgovernado aqui", afirmou Eurípedes Rosário, de 58, morador da Benedetto Bonfigli. "Falta manutenção na rua, que era de paralelepípedo e só recebeu essa cobertura aí. Até levantei minha calçada. O pior é que aqui tem saída de colégio."   O consultor em engenharia de trânsito Horácio Augusto Figueira cobra há anos da Prefeitura um ajuste do tempo de semáforos para pedestres como forma de evitar atropelamentos. O atual, explica, obriga a pessoa a se deslocar à velocidade de 1,2 metro por segundo.   Segundo a CET, já houve revisão do tempo de "sinal verde" em 400 pontos com semáforos, além da redução de velocidade em grandes corredores, como a Avenida Rebouças. A empresa diz ter adotado medidas para coibir a imprudência, como a colocação de gradis para impedir a travessia em local sem faixa.   A CET promete agir contra situações em que pedestres têm de fazer a travessia de grandes avenidas em duas etapas, parando obrigatoriamente no canteiro. A primeira experiência deve ocorrer na Avenida Paulista, com nova sincronização dos sinais.

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