Motorista do assassino de Glauco é indiciado

Amigo de Nunes, que matou cartunista, é acusado de ter sido partícipe do crime; segundo delegado, ele facilitou entrada do criminoso na casa

Josmar Jozino Josmar Jozino, O Estadao de S.Paulo

23 Março 2010 | 00h00

O estudante Felipe de Oliveira Iasi, de 23 anos, foi indiciado ontem como partícipe do assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas, de 53, e de seu filho Raoni, de 25. Segundo a Polícia Civil, no último dia 12, o rapaz contribuiu para que o amigo Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, matasse as vítimas a tiros. O crime aconteceu em Osasco, Grande São Paulo.

Iasi deve responder ao processo em liberdade. O indiciamento como partícipe não é igual à coautoria, em que a pessoa ajuda o assassino a matar a vítima. O estudante foi ouvido ontem durante duas horas pelo delegado Archimedes Cassão Veras Júnior, do Setor de Investigações Gerais (SIG) de Osasco. Ao deixar o prédio da Delegacia Seccional, às 16h45, acompanhado da mãe, Eneida, e do padrasto, Antonio Lima, o rapaz não quis falar com jornalistas, mas fez um breve desabafo. "Estou revoltado. Sou inocente", disse. Em seguida, entrou no carro de seu advogado, Cássio Paoletti.

De acordo com Veras Júnior, a contribuição de Iasi no crime foi ter pulado o muro e aberto o portão da chácara onde o cartunista vivia com a família, facilitando assim a entrada de Nunes. "Ele poderia ter alertado as vítimas. Estava o tempo todo com o telefone celular e também poderia, se quisesse, ter avisado a polícia", argumentou o delegado.

Em seu primeiro depoimento, prestado dia 14, Iasi alegou ter sido sequestrado por Nunes e obrigado a levá-lo, em seu Gol cinza, à casa de Glauco. Veras Júnior afirma que apurou, no entanto, que durante o trajeto o carro de Iasi cruzou com um veículo da PM e que nada fez para comunicar o fato. Iasi disse ainda ter fugido da chácara antes de Nunes matar as vítimas, em um momento de distração do acusado.

Ajuda. A Polícia Civil, porém, diz ter apurado que Nunes não fugiu a pé. Iasi é suspeito de ajudá-lo a escapar. O Gol do estudante foi apreendido para ser periciado. Integrantes do Instituto de Criminalística (IC) procuravam, ontem, no carro, vestígios de pólvora ou de sangue.

Veras Júnior também aguarda a análise do GPS do Gol para saber o horário e qual itinerário Iasi fez no retorno de Osasco. O rapaz afirmou que, depois de fugir, foi para casa, dormiu às 6h, acordou às 10h, ligou o computador, acessou a internet, soube dos crimes e avisou sua mãe. Ambos tiveram o sigilo telefônico quebrado pela Justiça. O mesmo foi feito com Nunes.

O padrasto de Iasi disse ontem na delegacia que seu enteado é vítima de Cadu. "Ele é inocente e disse a verdade em seus depoimentos", argumentou Antonio Lima. Paoletti afirmou que vai recorrer contra o indiciamento com pedido de habeas corpus à Justiça. O advogado chamou o delegado Veras Júnior de arbitrário: "Ele não me deixou tirar cópia dos autos. No inquérito não há laudos técnicos nem provas contra meu cliente", completou Paoletti.

Foz do Iguaçu. Ontem, o irmão e o pai de Nunes o visitaram na Polícia Federal de Foz do Iguaçu (PR), onde ele está preso desde o dia 14. De acordo com a PF, a visita teve início às 9 horas e terminou 15 minutos depois. Nesse tempo, o pai e o irmão do preso entregaram produtos de higiene e conversaram com o jovem.

Ainda não há informações sobre uma eventual transferência do preso para São Paulo, pois ele responde no Paraná por tentativa de homicídio - ao fugir, ele feriu um policial durante uma troca de tiros. O episódio aconteceu quando o estudante foi abordado por policiais rodoviários em Foz do Iguaçu. Na ocasião, ele tentava fugir para o Paraguai. O policial passa bem.

Nunes é conhecido da família das vítimas e frequentava a Igreja Céu de Maria, adepta dos princípios do Santo Daime, fundada por Glauco. Ele afirmou à polícia que no dia do crime pretendia levar o cartunista até sua mãe, para que ele confirmasse que o irmão é a reencarnação de Jesus Cristo.

PARA ENTENDER

Juiz decide pena de partícipe

Partícipe

É o indivíduo que colabora para a execução de um crime. No caso de Iasi, a polícia o considera partícipe porque ele abriu o portão da chácara do cartunista para a entrada do criminoso

Coautoria

Ele não deve ser confundido com coautor de homicídio, ou seja, aquele que ajuda alguém a matar alguma vítima

Pena

É mais branda do que para o autor do homicídio. O juiz é quem decide a pena, levando em consideração se o acusado é primário, tem emprego e residência fixa. O partícipe de homicídio é enquadrado no artigo 121 combinado com o artigo 29 do Código Penal.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.