Motorista atropela e decepa ciclista

Acidente ocorreu na Av. Paulista, onde a vítima perdeu o braço, que ficou no carro de estudante; embriagado, ele jogou o membro em um córrego

BRUNO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

11 Março 2013 | 02h02

Um estudante de psicologia alcoolizado dirigia em zigue-zague e em alta velocidade entre os cones da ciclofaixa da Avenida Paulista na madrugada de ontem quando atropelou um ciclista. O braço da vítima foi decepado na hora e ficou preso no para-brisa do carro do estudante, que não parou e seguiu até zona sul, onde jogou o membro no Córrego do Ipiranga, na Avenida Ricardo Jafet, a cerca de cinco quilômetros de distância.

Alex Siwec, de 22 anos, dirigia o Honda Fit do pai e voltava da casa noturna Josephine, em Moema, na zona sul, com um amigo. Segundo testemunhas contaram à polícia, ele ia em direção ao Paraíso e já estava na faixa exclusiva na altura da Paulista com a Rua Augusta. Em "velocidade acima da desenvolvida pelos demais carros", segundo contou o delegado Luis Francisco Segantin Júnior, assistente da 1.º Delegacia Seccional da cidade, o rapaz ficou entrando e saindo da faixa, derrubando cones pelo caminho, até atingir o ciclista David Santos Souza, de 21 anos.

Depois do acidente, que foi na altura da Estação Brigadeiro do Metrô, Siwec deixou o amigo em casa, na região da Saúde, também na zona sul, e antes de chegar no condomínio onde mora, parou na Ricardo Jafet e jogou o braço de Santos. Isso impediu que médicos do Hospital das Clínicas, para onde a vítima foi levada, pudessem tentar fazer o reimplante do membro.

Segundo a polícia, ao estacionar o carro, o rapaz não entrou em casa: procurou uma base comunitária da Polícia Militar que fica a poucas quadras de distância do condomínio e se entregou. "Ele exalava álcool, mas se recusou a fazer o exame de etilômetro (bafômetro) e o exame de sangue. Mas o teste clínico constatou que ele ainda mantinha sinais de embriaguez", disse o subtenente Jaime de Souza Melo. Ao se entregar, o rapaz foi levado ao 78.º Distrito Policial (Jardins). Policias levaram-no de volta ao rio, para que ele indicasse o local onde o braço foi deixado. Bombeiros fizeram buscas no local, mas não acharam o membro.

O advogado de Siwec, Pablo Navis Testoni, disse que o caso foi um acidente. "Ele, obviamente, não tinha intenção de matar". Mas a polícia o indiciou por tentativa de homicídio doloso (intencional), omissão de socorro, fuga de local de crime e por crime de trânsito. Ele foi preso em flagrante e levado à noite para a carceragem do 2.º Distrito Policial (Bom Retiro), no centro - hoje deve seguir para um Centro de Detenção Provisória. A polícia ainda vai ouvir testemunhas, inclusive o amigo que estava no carro, e ver imagens de câmeras de segurança da região.

A ciclofaixa da Paulista é montada por volta das 4h30, mas só entra em operação, com monitores, às 7h. "Mas segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), os cones fazem parte da sinalização e devem ser respeitados", disse o subtenente Melo. A batida foi por volta das 5h30.

Vítima

Souza ficou caído na Paulista até ser socorrido pelo Resgate, que o levou ao Hospital das Clínicas. Ele estava em observação até a noite de ontem.

Morador do Jardim Pantanal, no extremo leste da cidade, o rapaz trabalhava há 10 meses na limpeza exterior de prédios, usando rapel. Seguia para o Instituto do Câncer do HC. A bicicleta era seu meio de transporte pela cidade. Sua mãe, Antonia Santos, ainda em choque, disse que o rapaz estava sedado e que, segundo ela, ainda não sabia que seu braço havia sido arrancado.

Cicloativistas protestam na Av. Paulista e no DP 

O acidente brutal ocorrido na Avenida Paulista na madrugada de ontem mobilizou cerca de 100 cicloativistas, que fizeram dois protestos. Um na própria avenida, às 16 horas, e outro às 17h30 em frente do 78.º Distrito Policial (Jardins), na Rua Estados Unidos, onde o motorista Alex Siwec estava preso.

O protesto - os manifestantes disseram que não havia líder - foi organizado pelo site Facebook, que já tinha postagens desde o começo da manhã sobre o acidente e eventos marcando a mobilização, que inicialmente devia ocorrer na Avenida Paulista. A proposta de seguir até a Estados Unidos surgiu no decorrer do ato.

Com cartazes colados ao corpo, com dizeres pedindo respeito aos ciclistas, os manifestantes chegaram a deitar nas duas avenidas. Em ambos os casos, após intervenção da Polícia Militar, feita de forma pacífica, os ciclistas liberaram as faixas.

"Na Paulista, a ciclofaixa é até as 16h. Depois desse horário, os carros são jogados nos ciclistas com agressividade", contou o professor Danilo Silvestre, de 27 anos, um dos manifestantes que foi ao protesto após a organização pela internet.

Antes do protesto começar, um grupo menor de ciclistas chegou a hostilizar verbalmente parentes do estudante Siwec na delegacia, o chamando de assassino. A mesma palavra foi usada, aos gritos, na manifestação.

O consultor de mobilidade Daniel Guth, um dos coordenadores da implementação das ciclofaixas na cidade na gestão Gilberto Kassab (PSD), que estava na manifestação, disse que o ato servia, primeiro, para pedir respeito aos ciclistas. "Poderia ser qualquer um", disse. "Há diversos projetos para o uso compartilhado entre carros e bicicletas na Avenida Paulista. Diversos. Já houve uma série de mortes ali e hoje esse acidente grave. Para acabar com isso, é preciso vontade política", completou.

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