Motoboy fura bloqueio, é agredido por PM e perde visão

A família do motoboy Júlio César dos Santos Camargo, de 34 anos, acusa policiais militares de agredi-lo com violência durante uma blitz do Comando de Policiamento de Trânsito (CPTran) na frente da escola de samba Rosas de Ouro, no Limão, zona norte de São Paulo. Segundo a mulher de Camargo, Cristiane dos Santos, de 34 anos, o motoboy perdeu a visão do olho direito após levar uma coronhada de um soldado da Polícia Militar.

GIO MENDES, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2012 | 03h06

A agressão teria ocorrido quando Camargo tentou desviar do bloqueio porque estava com a carteira de habilitação vencida havia seis meses. O policial alegou que, durante a abordagem, a arma bateu no rosto de Camargo involuntariamente quando ele acelerou a moto ao fugir da blitz de trânsito.

Policiais do 2.º Batalhão de Trânsito (BPTran) montaram o bloqueio na Rua Rosas de Ouro na noite de quarta-feira. De acordo com Cristiane, o marido avistou a blitz ao sair da Marginal do Tietê e entrou na Rua Coronel Euclides Machado para não ser parado. "Um dos PMs foi atrás do meu marido, que parou a moto depois de levar a coronhada no rosto", contou Cristiane.

Segundo a mulher, o motoboy contou que recebeu mais coronhadas de outros policiais depois de ser dominado. "Os policiais perguntavam aos gritos se meu marido tinha passagem (criminal) e ele respondia que era trabalhador", disse Cristiane.

Em fuga. Em depoimento no 40.º Distrito Policial (Vila Santa Maria), o soldado Aruk Lopes afirmou que Camargo não obedeceu à ordem de parada dada por outro policial e acelerou. Na versão de Lopes, ele procurou se esquivar da moto e estendeu a mão direita para a frente, com a qual segurava sua arma. Segundo o soldado, Camargo acabou batendo o rosto contra a arma e continuou a fuga.

Lopes disse que entrou na viatura e conseguiu abordar o motoqueiro alguns metros à frente. Ao perceber que Camargo estava ferido, os policiais o levaram para o hospital.

O motoqueiro foi transferido anteontem do Hospital de Vila Nova Cachoeirinha para a Santa Casa de Misericórdia, onde passou por uma cirurgia de seis horas para a reconstrução do globo ocular.

O hospital informou ontem à tarde que Camargo passaria por uma avaliação para saber se ele teria algum problema na visão. Segundo Cristiane, os médicos informaram a família no começo da noite de ontem que ele não enxergaria mais com o olho direito. Ainda de acordo com ela, o motoboy sofreu fraturas no nariz e no maxilar.

Investigação. O caso foi registrado inicialmente como desobediência e lesão corporal culposa (sem intenção de ferir) pelo delegado plantonista Ailton de Camargo Braga. Ao saber do estado em que ficou o rosto de motoqueiro, o delegado Elder Leal, titular do 40.º DP, decidiu instaurar um inquérito de abuso de poder e lesão corporal dolosa (com intenção) para investigar a ação dos policiais militares.

"Resolvi mudar o inquérito diante da gravidade da lesão. Não tem como o motoqueiro sofrer aquele ferimento no olho apenas com uma batida involuntária da arma", afirmou o delegado titular. Leal espera ouvir o motoboy na segunda-feira, caso ele receba alta.

Segundo Cristiane, o motoboy estava sendo avaliado ontem à noite por médicos da área de bucomaxilofacial da Santa Casa. A família de Camargo também vai denunciar o caso à Corregedoria da Polícia Militar.

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