Motoboy é minoria entre acidentados, diz pesquisa do HC

JORNAL DA TARDE

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

Pesquisa do Hospital das Clínicas mostra que a maior parte dos pacientes que se envolveram em acidentes de moto e foram atendidos no Instituto de Ortopedia da instituição não é formada por motoboys, mas por pessoas que usam o veículo apenas para transporte.

O levantamento acompanhou durante seis meses os pacientes que precisaram de internação no instituto. Foram 84 pessoas. Em 2004, 51% dos pacientes nessa situação eram motoboys. No novo estudo, produzido entre maio e novembro do ano passado e divulgado na segunda-feira, apenas 33% das vítimas usavam a moto como ferramenta de trabalho. Hoje, há cerca de 800 mil motos emplacadas na cidade, segundo o Detran (em 2004 eram 470 mil). A estimativa é de haver 200 mil motoboys na cidade.

"Em 2004, 30% deles (dos acidentados) recebiam até um salário mínimo (R$ 510). Agora, 37% recebem mais de quatro salários (R$ 2.040)", afirma uma das coordenadoras do estudo, a assistente social Kátia Campos dos Anjos. "Os pacientes, pessoas que iam casar, que estudavam, tiveram de mudar totalmente de vida", diz Kátia. "A renda familiar cai, porque ele (acidentado) fica impossibilitado de trabalhar. Por outro lado, o custo de vida sobe, especialmente com gasolina e estacionamento, uma vez que o paciente tem dificuldades para usar transporte público." Em média, essas pessoas ficam 18 meses internadas.

Outra mudança é o índice de mulheres envolvidas em acidentes, que dobrou. Segundo Kátia, na pesquisa de 2004, elas eram 5% das vítimas. Agora, são 10%. "Boa parte estava na garupa."

O médico Dirceu Rodrigues Alves Júnior, da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), diz que "há facilidade de aquisição e parcelamento das motos", o que contribui para o aumento do número de motoqueiros. Mas, na briga diária do trânsito, segundo ele, o motoboy leva vantagem sobre o motoqueiro comum. "Ele é mais malandro, tem mais experiência" e, por isso, sofre menos acidentes.

Ferimentos. Outro coordenador da pesquisa, o médico ortopedista Marcelo Rosa, diz que o perfil dos ferimentos desses acidentados não mudou. As principais áreas atingidas são os membros inferiores (coxa, joelhos, canelas e pés). Ele afirma que 95% dos pacientes tinham fraturas e metade delas eram expostas, o que exige tratamento mais caro e demorado. O HC gastou cerca de R$ 6 mil por mês com cada vítima de acidente internada no período da pesquisa, ou R$ 3 milhões no total em seis meses.

Para o presidente da Federação dos Motoclubes do Estado de São Paulo, Reinaldo de Carvalho, os cidadãos têm usado motos para fugir do trânsito, mas não recebem educação para isso. "As pessoas não sabem fazer curvas com as motos", exemplifica.

Marcelo Rosa

TRÊS PERGUNTAS PARA...ORTOPEDISTA E UM DOS COORDENADORES DO ESTUDO

1. Quais são os ferimentos mais comuns? Entre as fraturas, 54% são expostas, que exigem cuidado especial.

2. Há alguma medida que os motociclistas poderiam tomar na hora da queda para reduzir a gravidade dos ferimentos? A gravidade está ligada à energia envolvida. Energia é velocidade. Mas um ponto importante é o local onde o paciente cai. Se cai em um muro ou sob um carro, é pior.

3. Então o grande número de carros torna as marginais mais perigosas para motos? Cerca de 70% dos acidentes foram entre moto e carro.

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