JB Neto/AE
JB Neto/AE

Mostra em casarão vira dissidência da Casa Cor

Evento restrito no Jardim Europa garante 'liberdade de criação' a arquitetos top

Valéria França, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2011 | 00h00

Na Rua Groenlândia, no Jardim Europa, zona sul de São Paulo, um casarão dos anos 1940, o único ali pintado de preto, abriu as portas para um novo evento de decoração em São Paulo, a Mostra Black. Ela é pequena - participam 10 arquitetos e 4 paisagistas conhecidos no País pela experiência e pelo talento.

Entre eles estão Sig Bergamin, Ana Maria Vieira Santos e João Armentano, que andavam afastados de mostras do setor. E é por isso que nos bastidores da decoração o evento ganhou o apelido de "Mostra dos Dissidentes da Casa Cor".

"O evento pequeno valoriza o profissional. O meu trabalho não surge como mais um entre uma centena", diz Sig Bergamin, referindo-se à Casa Cor, que reúne 110 profissionais no Jockey Club de São Paulo, na Cidade Jardim, zona sul, até 12 de julho. "A Casa Cor começou pequena, como a Mostra Black, em uma residência no Morumbi, há 25 anos. Eu estava lá", afirma. Sig não participa da Casa Cor há pelo menos quatro anos.

"Depois de entrar em 110 espaços diferentes, o visitante não consegue mais assimilar informação", diz Louis de Charbonnières, um dos organizadores da Black, que transformou esse discurso em uma isca para atrair seus colaboradores. E o primeiro peixão foi Sig.

A ideia partiu da arquiteta Raquel Silveira, que sabia da insatisfação dos amigos de profissão. "Além de a Black ser menor, eles não pagam pelo espaço. São convidados", explica. "E isso significa que não precisam buscar patrocinadores para o ambiente e, assim, desfrutam de maior liberdade de criação."

Na Casa Cor, o metro quadrado custa R$ 2 mil, em média. Os demais eventos de decoração na cidade - são seis por ano - , em geral, ocorrem em lojas, caso da Decora Etna e da Artefacto. Nesses casos, é preciso se adaptar.

"Raquel queria novidade e não apenas abajur ao lado de sofá", conta João Armentano. "Não tinha como recusar o desafio." Ele transformou o sótão da casa, de 120 m², em um mix de escritório e living. O destaque do projeto é uma mesa retangular de 8 metros de comprimento, com apoio apenas nas extremidades. O arquiteto usou uma barra de ferro na estrutura da madeira para que ela não envergasse.

O arquiteto Roberto Migotto foi o mais arrojado. Fez um living todo vermelho com jogos de espelhos, que se transformam em uma brincadeira. Em um deles, de longe, a imagem fica de ponta-cabeça. Ao se aproximar, ela volta ao normal, e a sala ganha mais profundidade.

Reverência. "Mostra dos Dissidentes" é um nome que não agrada a todos. "A Black é instigante, mas não tem a mesma força que a Casa Cor. Não estou participando agora, mas posso fazê-lo no futuro", diz Armentano. Alguns arquitetos da Black estão na Casa Cor. É o caso de Migotto, que criou um espaço para a Deca, e de Jorge Elias, que voltou depois de 3 anos. "Demoramos 25 anos para transformar a Casa Cor na maior vitrine da decoração do País", diz o presidente, Angelo Derenze. "Tem espaço para todo mundo no mercado."

O CASARÃO DA GROENLÂNDIA

Com projeto de Jacques Pilon, a casa foi inaugurada em 1949 para receber os primeiros moradores, o casal Amélia e João Lacerda Soares. Ele era filho de fazendeiros de café e tocava um conglomerado de empresas. Entre seus amigos, estavam a família Matarazzo e o ex-prefeito Fábio da Silva Prado - para quem o casal abriu os salões da casa para homenagear Giovanni Gronchi, então presidente da Itália no Brasil. No sótão, Paulo Maluf chegou a cantar um bingo, quando assumiu a Prefeitura, em 1969.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.