ALEX SILVA / ESTADAO
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Mortes de motociclistas em SP sobem 18%; nº de vítimas é o maior em 3 anos

Técnicos da Prefeitura avaliam que crescimento dos aplicativos de entrega na capital é uma das principais causas para a alta de acidentes; já os óbitos de ciclistas caíram 40,5% e de pedestres, 5,8% no ano passado, segundo dados do governo estadual

Bruno Ribeiro e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - O número de mortos em acidentes de trânsito na cidade de São Paulo ficou estável em 2018 em relação a 2017 – foram 884 vítimas, apenas uma a menos do que no ano anterior. O resultado interrompe uma sequência de diminuição de casos do tipo na capital. A causa disso é o crescimento de 18% nas mortes de motociclistas (360, no total). Técnicos da Prefeitura avaliam que a alta está ligada ao crescimento dos aplicativos de entrega por motoboys, que dão prêmios em dinheiro para quem faz mais viagens. 

A tendência de redução, observada nos dois anos anteriores, se manteve entre ocupantes de ônibus (- 63%), ciclistas (- 40,5%) e pedestres (- 5,8%). No caso dos ocupantes de automóveis, também houve estabilidade: uma morte a mais no ano passado do que em 2017. Já o número de mortes de motociclistas foi o mais alto em três anos. Os dados são do Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito de São Paulo (Infosiga), mantido pelo governo estadual.

Técnicos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ouvidos pelo Estado avaliam desde meados de 2018 o peso do aumento do mercado de apps de entrega por motoboys (como Rappi, Loggi, Uber Eats, iFood) nesse cenário. A prática de oferecer prêmios a quem faz mais entregas – vedada pela lei federal 12.436/2011 – estimula a direção imprudente. O estudo anual da CET sobre o trânsito ainda está em andamento. 

Oficialmente, a companhia diz monitorar as estatísticas e o comportamento do trânsito “para nortear a implantação de medidas de segurança viária”. Afirma ainda que, junto da Polícia Militar, “mantém a fiscalização para coibir abusos de velocidade e a imprudência de motociclistas, as maiores vítimas do trânsito na cidade”.

A prática da oferta de prêmios, por outro lado, já foi alvo de ação judicial do Ministério Público do Trabalho, que será julgada no mês que vem contra a Loggi. Também motivou a abertura de inquéritos contra as empresas Rappi, iFood e outras, em andamento. 

Na ação da Loggi, os procuradores Tatiana Campelo, Tatiana Somonetti e Rodrigo Castilho apontam os estímulos para aumento de viagens e outras violações à saúde do trabalho, como falta de tempo de descanso adequado. “O resultado disso é o aumento no número de acidentes de trânsito, nas despesas com previdência social e a sonegação de impostos”, diz a ação, cujo foco é a relação trabalhista de apps e entregadores. 

Estímulos

Esses prêmios não são bem vistos pela própria categoria, segundo o presidente do Sindicato dos Mensageiros Motociclistas de São Paulo (Sindimotosp), Gilberto de Almeida dos Santos. “O principal problema é que essas empresas trazem gente muito nova, sem experiência, sem cursos. E, com esses estímulos, esse pessoal é colocado para correr”, diz. O sindicato estima que 220 mil motoboys circulem em São Paulo.

Mensagens com esses estímulos são disparadas por SMS. Em outubro, uma das mensagens, atribuída à empresa Uber Eats dizia: “Ganhe 570 reais completando 44 entregas ou ganhe 80 reais completando 26 entregas”. Outra, atribuída à Rappi, dava “incentivo especial” de R$ 50 para quem fizesse cinco entregas em duas horas. “Garanta o presente da garotada hoje”, dizia o texto, de 11 de outubro. 

Muitos dos que tentam acompanhar esse ritmo se acidentam. Motoboy há 10 anos, Rafael Silva, de 36 anos, faz entregas por app à noite. “Tem de prestar muita atenção no celular porque é rua de bairro, coloca sua vida em risco. E tem de acelerar para pegar pedido porque o tempo é pouco. Dão 10 minutos para chegar no restaurante e, se passar 30 segundos, cancelam.” O acidente mais grave que sofreu foi há quatro meses, quando um carro atingiu sua perna em uma entrega. “Fiquei 45 dias sem trabalhar. Deu inchaço no tornozelo, afetou a veia. Tive de fazer cirurgia.”

Emersonn Souza, de 29 anos, aderiu aos apps há nove meses. “Dependendo do lugar, se é longe e tem muito trânsito, tem de sair cortando, passando farol vermelho, fazendo gato para poder chegar rápido nos restaurantes”, conta ele. 

Apps

Ao Estado, o iFood disse promover “ações para garantir a qualidade de vida e segurança dos entregadores”. Afirmou ainda que “reforça aos operadores logísticos parceiros e aos restaurantes com entregadores próprios a importância do cumprimento da legislação e melhores práticas de trânsito.” A Loggi disse apenas que “vem revolucionando a logística” no País, promovendo “inclusão social”, e que “é natural que sociedade e órgãos públicos queiram acompanhar a evolução do mercado de aplicativos”. A Uber Eats chegou a pedir dados do Infosiga, que são públicos, mas não se manifestou. A Rappi não respondeu.

Fiscalização menor e metas prejudicam, afirma especialista

Os estímulos de apps para motoboys fazerem mais entregas pode ser a causa do aumento de mortes no trânsito, na avaliação de especialistas. Mas o fenômeno ainda precisa mais estudos. 

Professor de Engenharia da Universidade Mackenzie Campinas, Luiz Vicente de Mello Filho comenta que boa parte dos motoboys olha o celular para acompanhar o trajeto. “É uma distração”, diz. “E também há as metas. Para cumprir, não respeitam leis de trânsito, como limite de velocidade, sinal vermelho e conversões proibidas.” E a fiscalização de motos, por ser um modal pequeno, é falha. “Câmeras fixas dificilmente vão pegar.” Na capital, motos representam 13,5% da frota, mas receberam só 5,5% das multas em 2017, como o Estado mostrou no ano passado. 

Professora de Planejamento Territorial da Universidade Federal do ABC (UFABC), Silvana Zioni também vê como possível a relação entre o aumento de viagens e de mortes. “Mas seria importante ver também se os aplicativos fizeram o número de motoboys aumentar”, ressalva. Não há dados sobre o número de motoboys que atuam em apps na cidade. / COLABOROU PRISCILA MENGUE

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