Mortes da Rota na mira da Ouvidoria da PM de São Paulo

Foram 38 resistências seguidas de morte nos 9 primeiros meses de 2007 e 62 neste ano

William Cardoso, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2011 | 23h00

SÃO PAULO - A Rota, tropa de elite da Polícia Militar, está na mira da Ouvidoria da Polícia. O aumento no número de mortos em confrontos envolvendo integrantes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar - 63% em cinco anos - despertou a atenção do ouvidor Luiz Gonzaga Dantas, que promete acompanhar de perto a atuação do 1.º Batalhão de Policiamento de Choque. Entre segunda-feira e ontem, foram mais duas mortes. Em uma delas, a família diz que houve execução.

O crescimento de 63% nas resistências seguidas de morte (homicídio cometido por policial em suposto confronto) se dá na comparação entre os nove primeiros meses de 2007 e o mesmo período deste ano. "A Ouvidoria está atenta ao desempenho da Rota. Nos últimos anos, teve uma crescente no número de resistências. É preciso propor ações de controle."

Segundo o ouvidor, o policial deve agir dentro da legalidade. "A função primeira da polícia não é matar ninguém. Usar a arma é o último recurso. O PM é agente público, a função é difícil, mas não significa que pode atirar primeiro e perguntar depois."

Há uma semana, a Rota é comandada pelo tenente-coronel Salvador Modesto Madia, acusado pela morte de 74 presos no massacre do Carandiru, em 1992. Cada um dos detentos mortos recebeu em média 4,5 tiros. Nenhum policial morreu. Ele recorre da acusação e diz que não houve execução. O ouvidor também promete acompanhar o trabalho do novo comandante.

Suspeita. Um dos casos mais recentes envolve o vendedor Caio Bruno Paiva, de 25 anos. Ele foi morto por um soldado da Rota às 22h50 de anteontem no Itaim Paulista, zona leste. O policial, de folga, disse que Paiva era integrante do grupo que assaltou sua mulher poucos minutos antes. Ele alegou que foi sozinho atrás dos bandidos, com quem trocou tiros, atingindo o rapaz. Outros dois teriam fugido e a mulher do policial reconheceu o segurança como um dos ladrões.

"O que a gente percebeu é que as testemunhas que foram ouvidas no 50.º DP (Itaim Paulista) concordaram com a versão dada pelo policial", disse o capitão Rogério Santos, porta-voz da Rota. A vítima tinha registro criminal por tráfico de drogas e roubo.

A família de Paiva, porém, falou que o PM chegou atirando e o rapaz ainda implorou para não ser morto. Havia câmera em um condomínio na frente do local onde o vendedor foi baleado, mas a síndica disse à polícia que o equipamento estava "inoperante". O caso será investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa.

Não foi a única morte envolvendo a Rota nesta semana. Quatro horas depois da morte no Itaim Paulista, um homem foi morto na Rua Carijós, em Perdizes, zona oeste. Segundo a polícia, ele roubou um Citroën, fugiu e atirou contra os PMs, antes de ser baleado. A mulher que o acompanhava foi presa.

A PM diz que houve um grande investimento na Rota nos últimos anos e, por isso, a unidade está cada vez mais atuante, o que aumenta o risco de confrontos. A corporação ressalta também que investe em equipamentos e técnicas menos letais e afirma que abre investigação sobre todas as ocorrências com morte.

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