Morte e medo: a vida depois de uma chacina

Vizinhos de locais marcados pela violência na Grande SP pedem para sair antes do trabalho

William Cardoso - O Estado de S.Paulo,

25 de novembro de 2012 | 02h04

Marcas de sangue na porta de casa ou do trabalho, insegurança e sensação de que não se tem a quem recorrer contra a violência fazem parte da rotina de quem vive em bairros onde ocorreram chacinas na capital e na Grande São Paulo. Eles perderam amigos, conhecidos, gente que fazia parte do dia a dia e, de uma hora para outra, foi vítima de tiroteios.

Desde o início do ano, a região metropolitana registrou pelo menos 16 casos com três ou mais mortos em uma mesma ação criminosa - sete aconteceram na capital. Testemunhas sentem medo de contar o que viram, por temerem que os matadores retornem para "terminar o serviço".

"É uma situação que ninguém procurou, mas estamos passando por ela. É coisa de quem sente muita raiva, que quer descontar em alguém, mas a gente não tem nada a ver com isso", disse um marceneiro de 46 anos que perdeu cinco amigos no último dia 17, na Cidade Ademar, zona sul da capital.

Segundo testemunhas, os rapazes, todos trabalhadores, foram assassinados por dois homens com toucas ninjas dez minutos depois de uma viatura da Força Tática da Polícia Militar ter passado pelo local. Os PMs teriam mandado os rapazes saírem da rua.

Duas vítimas da chacina trabalhavam com o marceneiro e os outros três viviam sempre por perto. "Eles ficavam sentados na beira da viela. Toda vez que olho para lá não tem como não sentir falta. É todo dia, de manhã e à tarde."

A oficina onde o marceneiro trabalha também passou a baixar as portas mais cedo. Antes, elas ficavam abertas até o começo da noite. Agora, as ferramentas silenciam antes das 17h. "Olha só, já tem até placa de casa à venda por aqui. Ninguém quer ficar em um lugar assim."

Parece que o recado dado aos rapazes que morreram na madrugada do dia 17 ainda ecoa pela Rua Sebastião Afonso. "Aqui sempre foi uma festa, todo mundo se conhece desde pequeno. Eles acabaram com a gente", afirmou uma atendente desempregada de 21 anos, vizinha dos jovens assassinados.

Medo. No Jardim São Luís, no fim da manhã de sexta-feira, um ônibus encostou quase na frente do bar onde três pessoas foram mortas por um atirador que desceu da garupa de uma moto e atirou aleatoriamente. Ele trazia amigos e parentes das vítimas, após o enterro no cemitério do bairro. O clima de terror persistia. "Se vejo dois caras de moto, já penso: 'Será que é a minha hora de morrer?'. Não vou tomar mais cerveja de costas para a rua no bar", afirmou um cozinheiro de 33 anos. Ele disse que não pede para sair mais cedo porque a onda de violência não sensibilizou o patrão. "Ele lá vai querer saber do que está acontecendo."

Moradores de bairros onde ocorreram chacinas também contam histórias de medo ouvidas de terceiros. "Um amigo disse que estava voltando do trabalho à noite, com mochila nas costas, quando uma moto parou do lado, em uma rua aí em cima. O garupa ia atirar, mas o da frente disse 'para, deixa para lá, esse é trabalhador'. E olha que é só tiro certeiro, cara, pescoço e coração", conta um manobrista de 23 anos, em um bar próximo de onde aconteceu a chacina mais recente do Jardim São Luís.

O dono do bar onde ocorreu a chacina já pretende mudar de ramo. "Estou arrasado. Perdi três amigos. Não vou mais mexer com bar. Tinha o bar fazia um ano e pouco. Não quero mais."

Passado. No Jardim Comunitário, em Taboão da Serra, a morte de três jovens na última segunda-feira despertou uma sensação de déjà-vu em quem viveu no bairro durante os anos 1990.

É o caso de um comerciante de 50 anos que mora e trabalha há 20 na rua onde os rapazes foram assassinados - outros três baleados escaparam com vida. "Há muitos anos, era violento desse jeito. Daí, ficou tranquilo. Agora, está todo mundo assustado de novo", conta. O comerciante diz que também passou a baixar as portas mais cedo depois da chacina e, agora, tem medo da noite. "Inventa de passar aqui depois das nove da noite para você ver... Não tem ninguém na rua", diz. "Onde tem uma turminha, eles metem bala", completa.

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