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Morte do ponto G

Senhoras e senhores, garotos e garotas, estimado público, podem parar de procurar! O ponto G não existe! Novo artigo de revisão científica do periódico Clinical Anatomy, publicado no jornal britânico Daily Mail desta semana, confirmou o que muitos já suspeitavam: ele não passa de um conto de fadas. E mais: os especialistas alertam que as mulheres e, por tabela, os homens, que vivem procurando o orgasmo vaginal também estão perdendo seu tempo.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h04

Para os pesquisadores não adianta nada tentar separar o orgasmo feminino em vaginal e clitoriano. Ele seria um processo único, análogo ao que acontece com o masculino. As mulheres que, ao longo de décadas, foram tratadas como portadoras de uma disfunção sexual por não atingirem o orgasmo vaginal com a penetração não são exceções, mas quase uma regra absoluta!

O único gatilho para o prazer feminino seria mesmo o clitóris, pequeno órgão localizado próximo da junção superior dos pequenos lábios vaginais. O clitóris é composto por um tecido erétil, que fica intumescido ao ser preenchido por sangue quando a mulher fica excitada, de forma semelhante ao que acontece com os corpos cavernosos e esponjoso do pênis.

Além do clitóris, os bulbos vestibulares (pequenas protuberâncias em cada um dos lados da abertura vaginal), os pequenos lábios vaginais e o corpo esponjoso que cerca a uretra feminina são compostos por esses tecidos que lembram uma "esponja". Essas áreas mais "sensíveis", ao serem estimuladas na penetração ou nas preliminares, podem facilitar o orgasmo feminino.

Obituário. O tal ponto G, descrito no meio do século passado pelo médico alemão Ernst Gräfenberg (foi em sua homenagem que se grafou com a letra G essa parte do corpo feminino), nunca foi um consenso. O ginecologista judeu, titular da Universidade de Berlim no final dos anos 1930, começou a pesquisar a fisiologia reprodutiva ainda na Alemanha, mas teve de fugir do país em função da ascensão do nazismo, tendo se estabelecido na Califórnia (EUA), onde em 1950 publicou The Role of Urethra in Female Orgasm (O Papel da Uretra no Orgasmo Feminino), trabalho em que, também, descrevia o raro mas possível episódio (até que se prove o contrário, claro) da ejaculação feminina.

Em raríssimas ocasiões ao longo desses últimos 70 anos um pesquisador conseguiu dissecar e individualizar anatomicamente o ponto G. Para muitos, o mais correto seria dizer que ele é um prolongamento de fibras nervosas e mesmo de tecido erétil do próprio clitóris, localizado a poucos centímetros da entrada da vagina.

Agonia. Por falar nesse pequeno órgão sexual feminino, outro estudo recente (de fevereiro) publicado no Journal of Sexual Medicine, já havia colocado o ponto G na fila da UTI, ao sugerir que o tamanho do clitóris é que era vital no desencadeamento do orgasmo da mulher. O resto não importaria!

Cientistas avaliaram com a técnica de ressonância magnética a pelve de 30 mulheres, com média de idade de 32 anos. Dez delas não atingiam o orgasmo nunca ou apenas raramente, enquanto outras 20 tinham vida sexual normal. Aquelas que enfrentavam dificuldades, no exame de imagem, apresentavam clitóris menores e mais distantes da entrada da vagina.

Os pesquisadores acreditam que, apesar de o processo de atingir o orgasmo ser complexo (envolvendo emoções e estruturas cerebrais), o tamanho e a localização dos clitóris podem dar pistas de como o estímulo local poderia facilitar seu desencadeamento. Mulheres com clitóris maiores ou mais próximos da vagina poderiam ter maior facilidade de serem estimuladas pelo pênis do parceiro durante a penetração.

Para as muitas mulheres que passaram boa parte de sua vida sexual em busca do orgasmo vaginal, supostamente mais longo e mais intenso do que um orgasmo clitoriano, e para os homens que vivem atrás do "mapa da mina" do ponto G, o recado das pesquisas parece ser: esqueçam essa busca incansável e invistam na estimulação do clitóris, tanto nas preliminares, como na penetração. Esse gatilho do prazer feminino continua em alta! Antes de terminar, também é bom lembrar que a mulher não se resume ao clitóris. Carinho e atenção ao conjunto da obra são muito bem-vindos!

É PSIQUIATRA

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