Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Morte do artista plástico Jorge Selarón no Rio tem repercussão internacional

Corpo do chileno estava carbonizado em escadaria que ele coloriu; polícia investiga ex-colaborador, que está sendo procurado

Antonio Pita / Rio, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2013 | 02h01

Após dois meses de ameaças de morte, insegurança e depressão, o artista plástico chileno Jorge Selarón, de 65 anos, foi encontrado morto na manhã de ontem sobre os degraus de sua mais famosa obra, a escadaria do Convento de Santa Teresa, no centro do Rio. Selarón vinha sendo intimidado por um ex-colaborador, que está sendo procurado por investigadores. A morte teve repercussão internacional.

O corpo do chileno foi encontrado por volta das 7h20 da manhã, na frente de sua casa, carbonizado principalmente no rosto e ombros. Ao lado do corpo, a polícia encontrou uma lata de solvente inflamável e um isqueiro. Vizinhos contaram ter ouvido gritos de um homem pedindo socorro antes de sentir um forte cheiro de queimado.

Selarón vinha sendo ameaçado por Paulo Sérgio Rabello, morador da escadaria, desde novembro. Eles trabalhavam juntos havia seis anos. Rabello fazia impressões gráficas em azulejos comercializados pelo artista em seu ateliê.

As brigas teriam começado pois o colaborador desejava assumir o controle das vendas, o que Selarón recusava. Segundo um funcionário, o artista plástico também teria descredenciado Rabello como beneficiário da exploração comercial de suas obras após sua morte.

No dia 24 de novembro, o artista foi a uma delegacia registrar ameaças e danos de autoria de Rabello, que teria invadido seu ateliê e destruído cerâmicas e quadros. No dia 25, Selarón escreveu um bilhete em que relatava o caso. "Hoje dormi em um hotel, pois todos estes últimos dias estou sendo ameaçado de morte pelo Paulo", dizia o bilhete divulgado pelo jornal O Globo.

A audiência do caso estava marcada para 20 de fevereiro. O secretário do artista, o argentino Carlos Agostin Gomes, afirmou que também sofria ameaças. "No último dia 28, ele me agrediu com um pedaço de madeira e queimou meu rosto. Ele misturou as coisas. O olho cresceu." Ontem, Rabello e sua família não foram vistos em casa.

Ele é irmão de Wilton Quintanilha Rebello, o Abelha, que foi condenado por tráfico e roubo a banco e cumpre pena um presídio federal em Goiás. Segundo moradores, a família controlava o tráfico de drogas na escadaria. Apesar de ser um dos principais pontos turísticos da cidade, o local era ponto de venda e consumo de maconha e cocaína.

Depoimentos. Para a Polícia Civil, até agora Rabello não é suspeito do crime, mas é procurado para depor. Ontem, cinco pessoas foram ouvidas, entre elas três funcionários do artista e dois vizinhos. Segundo eles, Selarón passava por um período de depressão por causa das ameaças e já tinha perguntado sobre comprimidos para suicídio. Por isso, a Polícia Civil também investiga essa hipótese.

O corpo de Selarón passou por uma perícia no local e foi removido por volta das 11h. O laudo do Instituto Médico-Legal deve ser divulgado hoje. Ainda não há informações sobre o sepultamento do artista, que não tinha contato com a família no Chile.

"Ele mudou muito nos últimos meses, estava acuado, dizia que não queria mais viver", afirmou o amigo e vizinho Dhel Aquino. Uma vizinha na pensão onde o artista morava com outras 19 pessoas afirmou que na noite anterior Selarón conversou com todos os moradores. "Foi como se ele estivesse se despedindo."

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