'Morte de motoboy, em abril de 2010, foi o pior momento'

De saída após 3 anos de comando, coronel aponta acusação contra 9 PMs por homicídio na zona norte como 'hora mais difícil'

Entrevista com

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2012 | 03h04

No dia 21 de maio, o comandante-geral da Polícia Militar, Alvaro Batista Camilo, de 50 anos, completaria cinco anos como coronel e precisaria se aposentar. Na semana passada, em conversa com o secretário da Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto, os dois decidiram antecipar sua saída. Ele ficou três anos no comando da PM de São Paulo. O coronel Pedro Batista Lamoso, subcomandante-geral, assume o cargo provisoriamente, já que também vai se aposentar da PM no dia 21.

Por que o senhor antecipou sua saída?

Foi desejo de todo mundo, meu e do secretário. Achamos que esse período final poderia não fluir, não seguiria o mesmo ritmo, com todos esperando que eu deixasse o cargo. A minha posição é muito importante para que seguisse em ritmo menos intenso que o devido.

Nesses três anos, qual foi a marca da sua gestão?

A valorização do policial. Do soldado ao coronel, eles sabiam que o comando reconhecia o trabalho que eles faziam. Ainda investimos em tecnologia, com tablets nas viaturas, coletes para todos os soldados e conseguimos aposentar o revólver na corporação e compramos 65 mil pistolas. Ainda ampliamos a Comunicação Social, criamos o Comando de Patrulhamento de Trânsito com o uso de motos. Essa valorização do soldado permitiu que as taxas criminais continuassem caindo.

Qual foi o seu pior momento no comando da PM?

O pior foi em abril de 2010, quando nove policiais foram acusados de matar um motoboy (Eduardo Luiz Pinheiro dos Santos morreu depois de ser abordado por PMs e levado para a 1.ª Companhia do 9.º Batalhão, na Casa Verde). Tinha de mostrar para a população que a PM era composta de homens diferentes, que não faziam barbaridade como aquela. Foi difícil. Soube do caso às 14h30, mas às 17h30 já havia nove homens presos.

E o melhor?

No melhor momento, eram 3 horas da manhã quando acompanhei a ocorrência de um PM atendendo uma mulher em trabalho de parto. Passava pelo local por acaso e testemunhei uma ação emocionante. O policial não sabia que o comandante-geral estava vendo. Naquele dia percebi que a gente estava indo pelo caminho certo.

Como vai ser a sucessão? O senhor aposta em alguém?

São 55 coronéis atualmente, todos têm condições de assumir. São 52 homens e três mulheres. Quatro são negros e dois japoneses. Há espaço para todos e qualquer um pode ser o novo comandante. Mas é uma decisão do governador e do secretário, que certamente será bem conduzida.

Já são 30 coronéis à frente das subprefeituras. O próprio prefeito Gilberto Kassab (PSD) brinca que o senhor seria secretário de Coordenação das Subprefeituras. O que o senhor vai fazer?

Atualmente, são mais de cem coronéis na administração municipal. São pessoas que param de trabalhar na casa dos 50 anos, com boa formação. Passam 10 a 15 anos como tenente. Quando viram capitão, administram equipes de até 200, 300 homens. Passam depois de 15 a 18 anos da carreira trabalhando com esse tipo de gestão. Eles param de trabalhar em um período em que ainda há muito para produzir. Mas eu ainda não pensei e ainda não foi feito nenhum convite para qualquer posto. Até porque eu era comandante-geral até ontem. Vou agora descansar para pensar no que fazer, quem sabe dar aulas.

Por que as taxas de homicídio caíram, mas o roubo continua subindo em São Paulo?

Esse é um desafio que a gente precisa enfrentar no dia a dia. No caso dos homicídios, atuamos bastante no controle de armas e passamos a combater mais fortemente o tráfico de drogas. Nos roubos, o desafio permanece grande. Às vezes, atacamos em uma região e o criminoso segue para outra. É um tipo de crime dinâmico que precisamos monitorar em tempo real, o que as tecnologias atuais permitem fazer. Mas ainda é preciso avançar.

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