JF Diorio/Estadão
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Morte de adolescente pela PM em Santo André indigna parentes da vítima

Luan Nogueira, de 14 anos, foi morto por policiais em uma travessa na cidade da região metropolitana. PMs disseram que procuravam suspeitos de furtar uma motocicleta na região

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 20h39
Atualizado 08 Novembro 2017 | 09h53

SÃO PAULO - Parentes e amigos de um adolescente morto pela Polícia Militar em Santo André contestam a versão de que a vítima teria reagido a uma abordagem policial e estaria envolvido em um furto de uma motocicleta. Luan Gabriel Nogueira de Souza, de 14 anos, foi atingido por um disparo de um cabo da corporação no domingo passado enquanto estava em uma viela e conversava com amigos. Testemunhas afirmam que os PMs tentaram forjar o tiroteio. Luan foi enterrado nesta terça-feira, 7, com a presença de centenas de pessoas e sob forte comoção.

De acordo com o boletim de ocorrência do caso, os policiais Adilson Antonio Senna de Oliveira e José de Souza realizavam patrulhamento no Parque João Ramalho, em Santo André, na Região Metropolitana, após o registro de furto de uma motocicleta do pátio da prefeitura da cidade. Na Travessa 7 da Rua Paraúna teriam visualizado jovens desmontando o veículo em questão, momento em que esses suspeitos trocaram tiros com a guarnição e fugiram.

Na delegacia, os dois PMs disseram que um dos suspeitos, que aparentava ter 20 anos, empunhava um revólver calibre 38. “Do embate, o indivíduo Luan Gabriel Nogueira de Souza foi alvejado aparentemente por um disparo na altura da cabeça. Apesar do socorro acionado, foi constatado o óbito no local. Nenhuma arma de fogo foi localizada em posse do falecido, a qual possivelmente estava em posse de um dos desconhecidos que logrou êxito na fuga”, descreveu o boletim de ocorrência.

A versão apresentada pelos policiais é contestada pela família. Segundo narram os parentes, Luan saiu de casa, localizada numa travessa próxima, instantes antes para ir ao mercado comprar bolachas com um troco que havia ganhado da mãe de um amigo. Ao passar pela viela, cumprimentou os colegas ali e foi surpreendido com o disparo do policial, que teria entrado no local atirando. Testemunhas relataram à família que viram o momento em que o policial se aproximou do corpo e fez disparos na direção em que estava originalmente, com a suposta intenção de forjar o tiroteio. 

“Os indícios apontam para uma execução. O policial chegou atirando, como ocorre em muitas situações similares. A ação foi no mínimo extremamente desastrosa e resultou na morte de um rapaz respeitado pela comunidade e que nunca teve nenhum envolvimento com a criminalidade”, disse o advogado Ariel de Castro Alves, membro do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe). 

O ambulante Lucas Nogueira, de 23 anos, irmão da vítima, negou que tenha havido uma troca de tiros. “Ele foi acertado de imediato, assim que os policiais entraram na viela”, reclamou. “Esperamos que os policiais paguem pelo que fizeram. O que aconteceu não foi certo.” 

O boletim de ocorrência confirma que três disparos foram efetuados da pistola do cabo Alécio, e nenhum tiro foi dado pelo cabo Senna. Dois suspeitos foram detidos após a morte e, após serem ouvidos na delegacia, foram liberados. “Contudo, nada de irregular foi localizado em posse deles”, descreveu a autoridade policial. 

A mãe, a cozinheira Maria Medina Costa Ribeiro, de 43 anos, reconheceu pelo tênis que o seu filho era a vítima. “Um primo veio avisar dos tiros, mas não sabíamos o que havia acontecido ainda. Ele tinha saído pouco tempo antes de casa e fiquei nervosa. Os policiais não deixavam a gente se aproximar”, disse. “Tive que subir na laje da casa de uma sobrinha e pelo tênis já sabia que era ele. Conhecia muito bem o que ele usava e na hora já sabia.” Ela contou que a travessa onde Luan foi morto é uma das principais passagens da comunidade, usada por todos os moradores diariamente. 

Ela lamentou a morte e pediu investigação do caso. “Não precisava fazer isso com ele. Era uma criança que estudava bastante, pode ir na escola perguntar que você só vai ouvir coisas boas. Ele tinha o sonho de crescer na vida e me ajudar, ir trabalhar. Era muito querido.” 

Investigação. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que todas as circunstâncias dos fatos estão sendo apurados no inquérito policial militar instaurado pelo 10º Batalhão e acompanhado pela Corregedoria da PM. "Os policiais envolvidos foram afastados do serviço operacional. A investigação segue com o 2º DP de Santo André e testemunhas estão sendo ouvidas."

A pasta acrescentou que "todos os casos de morte decorrente de oposição à intervenção policial são rigorosamente investigados por meio de inquérito policial e a participação das respectivas corregedorias e comandos da região, das equipes do IML e do

IC, além do Ministério Público".

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