Morro do Bumba: o abandono continua

Pouco mais de um mês após desmoronamento que matou ao menos 51 pessoas no morro de Niterói, buscas estão paralisadas e apenas um funcionário da Defesa Civil tem ido ao local orientar moradores

Gabriela Moreira, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Passado pouco mais de um mês do temporal que matou pelo menos 51 pessoas no Morro do Bumba, em Niterói, região metropolitana do Rio, aos sobreviventes restam incertezas. A grande língua de terra e lixo que escorreu na favela construída em cima de um antigo lixão continua aberta na principal rua da comunidade. Segundo moradores, dez corpos ainda estão desaparecidos.

As máquinas já não trabalham nos escombros e as autoridades, que durante duas semanas visitaram a comunidade quase que diariamente, na semana passada eram representadas apenas por um funcionário da Defesa Civil municipal. Solitário, o rapaz de camisa branca e sem crachá, era o único agente do Estado na terça-feira na região, que por consequência das chuvas contabilizou 168 mortos e 7 mil desabrigados.

"Como faço para conseguir um laudo da Defesa Civil? A casa da minha mãe está quase desabando", perguntou um motoqueiro, ao avistar o funcionário. "Está vindo gente de todos os bairros, uma confusão generalizada", foi a resposta que obteve. O motoqueiro é morador de um morro vizinho ao Bumba e, depois de 35 dias da tragédia, tentava uma solução para os estragos da chuva.

Ajuda. O motorista Márcio Machado, de 36 anos, cumpre a rotina diária de ir ao local onde, até o desabamento, era sua casa. Sua mulher e os dois sobrinhos que o casal cria se salvaram porque no dia anterior à chuva faltou água na casa e eles saíram do imóvel. Afastado do trabalho por motivos de saúde, Machado questiona a forma como está sendo distribuído o aluguel-social. "O benefício só chegou para alguns. Como vocês podem ver, minha casa não existe, mas não consegui me cadastrar no programa."

No dia anterior, ele e sua família tinham passado o dia inteiro em mais uma fila para cadastramento do auxílio, na quadra da escola de samba da cidade, a Viradouro. "Tem gente que já se cadastrou seis vezes e não recebeu", contou a vizinha Arlete Alves, de 51 anos.

Uma cena frequente na comunidade são os caminhões de mudança. Na terça-feira, mais uma moradora decidiu deixar a favela. Irene Cardozo, de 89 anos, estava abrigada numa escola municipal. No início do mês, recebeu os R$ 400 do aluguel-social e decidiu retirar seus pertences da casa que a Defesa Civil condenou. Sem conseguir alugar um imóvel, ela estava se mudando para a varanda da casa de uma irmã, fora do Bumba. "Eu tive de pagar R$ 150 para fazer o frete. Com o restante, vou comprar tijolo para fechar a varanda", contou a doméstica aposentada.

Remoção. Na semana passada, a prefeitura começou a remoção dos desabrigados acolhidos em escolas municipais e estaduais para um terreno do governo do Estado, comprado do Exército, onde funcionava o 3.º Batalhão de Infantaria, no bairro Venda da Cruz. No local, há 700 pessoas, entre moradores do Bumba e de outras 34 comunidades afetadas pelas chuvas. O local virou alvo de cobiça de vítimas das chuvas que estão em abrigos considerados "não oficiais".

"Sou morador do Bumba, minha casa foi interditada no dia seguinte à tragédia, mas, como eu estou acomodado numa igreja, não pude me mudar para esse abrigo", reclama Carlos de Souza Moreira, pintor naval, de 47 anos. Segundo ele, nos abrigos não oficiais, alguns produtos começam a faltar. "Alimentos não chegam direito e já não temos material de higiene", diz.

Moradora de outro morro, o 340, no bairro Fonseca, a dona de casa Valdelígia de Castro, de 48 anos, conseguiu se instalar no terreno do antigo quartel. "Não sei muito o que dizer sobre as condições aqui. Está bom, mas não sei o que será daqui para frente", comenta ela, cuja única certeza é de que a casa onde morava com outras sete pessoas será demolida.

De acordo com a prefeitura de Niterói, outro abrigo está sendo estruturado para receber famílias que não puderam ir para o antigo quartel. Sobre o Morro do Bumba, a prefeitura informou que desapropriou um terreno em frente à comunidade, para a construção de 180 apartamentos, de 43 metros quadrados cada. Outro terreno com capacidade para 3 mil unidades ainda está sendo negociado.

Denúncia. Uma das denúncias que chegaram ao Ministério Público foi a de que servidores da prefeitura estariam exigindo a apresentação do título de eleitor para o cadastro no aluguel-social. O fato foi apresentado ao MP pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa. "Recebemos denúncia de uma moradora e integrantes da comissão estiveram no local. Levamos essa e outras denúncias em uma representação ao MP. Pedimos, entre outras coisas, a responsabilização do prefeito da cidade (Jorge Roberto da Silveira/PDT) pelas ações e omissões que provocaram essa tragédia", disse o presidente da comissão, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL).

Questionada sobre a denúncia, a Assessoria de Imprensa da prefeitura confirmou que a exigência do título ocorreu, mas informou que foi iniciativa isolada de um servidor, no Morro da Garganta, e que o funcionário foi advertido.

A prefeitura de Niterói informou que 3.152 famílias foram cadastradas e 2.260 pessoas receberam o auxílio. Em relação às denúncias de que moradores de outras favelas estariam sendo beneficiados com apartamentos destinados a moradores do Bumba, a prefeitura informou que foram checados os endereços por meio de cadastros dos programas Bolsa-Família e Médico de Família e entrevistas com vizinhos para confirmar se as pessoas realmente moravam no morro.

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