WERTHER SANTANA/ESTADÃO
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'Morreu como herói', diz viúva de bombeiro no Guarujá; nº de vítimas das chuvas chega a 25

Cabo Moraes morreu com colega durante tentativa de resgate em morro no Guarujá; mulher e bebê morreram no mesmo local. Vinte e seis pessoas estão desaparecidas

Lucas Melo, Especial para o Estado

04 de março de 2020 | 14h10
Atualizado 05 de março de 2020 | 11h01

GUARUJÁ - "Ele morreu como um herói, fazendo o que gosta. Isso que me conforta", disse Ana Cristina Moraes, viúva de Rogério de Moraes Santos, de 43 anos, um dos dois bombeiros que morreram enquanto tentavam salvar uma mulher e um bebê no Guarujá, cidade mais atingida pelas chuvas na Baixada Santista esta semana. A dupla participava do resgate quando houve novo deslizamento. O temporal já deixou pelo menos 25 mortos e 24 pessoas seguem desaparecidas.

"Só tenho a agradecer por ter compartilhado esses 23 anos com ele", acrescentou a dona de casa. O velório de Santos foi feito na tarde desta quarta-feira, 4, no Cemitério Municipal da Saudade.  O corpo chegou ao local por volta das 12 horas em um caminhão do Corpo de Bombeiros. A viúva e os três filhos do casal - duas jovens, de 21 e 19 anos, e um adolescente de 16 - também estavam no veículo. Na sala ao lado, ocorreu o velório da mãe e da criança que morreram soterrados no Morro do Macaco Molhado.

Uma Corporação em luto, a Família Corpo de Bombeiros de São Paulo sente o pesar dessa triste fatalidade.

Imagens do cortejo de nosso irmão de farda Cb PM Rogerio de Moraes Santos. Que o coração de cada familiar seja confortado.#CorpodeBombeirosdaPMESP #Cadasegundoconta pic.twitter.com/NTJIumuJLm

Aos poucos, bombeiros de diversos batalhões chegaram para uma última homenagem a Moraes. Alguns mais próximos e que trabalhavam com ele estavam muito emocionados. Um deles foi o sargento Francisco dos Santos, que se formou com Moraes e trabalhou com ele ao longo dos últimos 20 anos. "Era um cara íntegro, honesto e grande parceiro. Um pai de família, um grande confidente meu. É difícil falar algumas palavras, mas Deus levou nosso amigo para junto dele. O Moraes era o que define ser bombeiro", disse.

Companheiro de batalhão de Moraes, o cabo Amorim também falou emocionado sobre o parceiro. "Trabalhávamos juntos em Vicente de Carvalho. Era um excelente amigo, um cara sério, excelente profissional", ressaltou o colega. Moraes serviu no Exército antes de ingressar como bombeiro na Polícia Militar paulista, em 2000 e, segundo sua Ana Cristina, esse havia sido o grande sonho do marido. “Ele sempre quis ser bombeiro, sempre me dizia o quanto gostava da profissão. Acho que escolheu esse emprego para ajudar as pessoas”.

Lotado no 6º Grupamento do Corpo de Bombeiros, no distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá, durante quase todos os 20 anos de profissão, Moraes acumulou amigos e tinha um jeito diferente dos demais.“Aqui no batalhão, era tranquilo, mas tinha fama de turrão. Enquanto todo mundo estava na zoeira, ficava na dele. Eu o conhecia há mais de 15 anos e só tenho elogios para ele e sua família”, disse emocionado o sargento Amorim, companheiro de batalhão de Moraes.

Neste verão, as fortes chuvas na Região Sudeste já deixaram 143 mortos nos quatro Estados - São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. O número é mais de 70% maior do que o registrado na estação chuvosa anterior, quando houve 82 vítimas. A combinação de efeitos de longo prazo das mudanças climáticas, temperaturas mais baixas nos oceanos e falhas urbanísticas nas cidades explicam o aumento na quantidade de tragédias por causa de temporais, segundo especialistas ouvidos pelo Estado.

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