Morre mulher linchada pela população no Guarujá

De acordo com o ex-marido, ela era portadora de transtorno bipolar e foi acusada injustamente em rede social

Zuleide de Barros, especial para O Estado, O Estado de S. Paulo

05 Maio 2014 | 10h53

Atualizada às 21h44

GUARUJÁ - A Polícia Civil vai analisar imagens divulgadas na internet e um perfil em rede social para identificar os responsáveis pelo espancamento e morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 31 anos. O crime aconteceu no sábado, 3, no Guarujá, na Baixada Santista, após ela ter sido confundida com uma suposta sequestradora de crianças capturadas para rituais de magia negra. Pelo menos dez pessoas participaram do linchamento. Fabiane morreu na manhã desta segunda-feira, 5.

Até as 21h, ninguém havia sido preso pelo crime. Os responsáveis pela página Guarujá Alerta no Facebook, que postou a foto da mulher que teria sequestrado crianças, serão ouvidos na manhã desta terça pelo delegado Luís Ricardo Lara, do 1.º Distrito Policial de Vicente de Carvalho, responsável pelo bairro de Morrinhos 1, onde vivia Fabiane. A polícia, no entanto, informou que não há registro de desaparecimentos na cidade.

Nesta segunda, autores da página foram à delegacia central do Guarujá, onde se colocaram à disposição para prestar esclarecimentos. Eles garantiram que não publicaram a foto da suposta sequestradora. A postagem teria sido feita por um dos seguidores da página.

Fabiane sofreu várias escoriações e deu entrada no Hospital Santo Amaro com traumatismo craniano. Como o quadro se agravou no domingo, ela foi transferida para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde na manhã desta segunda, após ficar internada em coma induzido, morreu.

Violência. O espancamento revoltou a Baixada Santista. O clima era de revolta nesta segunda, entre parentes e vizinhos da vítima. O sepultamento será realizado nesta terça. Inconformado com a morte da mulher, que tinha duas filhas, uma de 13 e outra de apenas um ano, o marido, o porteiro Jaílson Alves das Neves, de 40 anos, afirmou que vai processar os responsáveis pela página.

"Quando ela voltou para casa, na tarde de sábado, todo mundo acreditou que Fabiane era a sequestradora, por causa da foto", disse. Neves disse que, apesar de a mulher sofrer de transtorno bipolar, ela fazia tratamento médico. "Ela era muito carinhosa com as filhas, que vão sentir muita a falta da mãe, até mesmo a menorzinha, que era muito agarrada com a Fabiane", afirmou.

Neves já constituiu um advogado para cuidar do caso. Aírton Sinto acompanha o caso desde domingo e disse concordar com o marido da vítima de que a retrato publicado na rede social foi o estopim do ataque. "Ela foi espancada porque acharam que era a pessoa da foto", afirmou. Ele solicitou à polícia a análise dos vídeos feitos por moradores durante o espancamento de Fabiane. "Não tenho dúvidas de que o site é responsável. Foi uma barbárie cometida por uma injustiça", disse.

Apelo. Na mesma página que alertava a população sobre a presença da provável sequestradora, uma amiga da vítima protestava em um comentário: "Só tenho a dizer que Fabiane é minha amiga há anos, tem duas filhas, família e amigos e jamais seria capaz de fazer algo do tipo com uma criança. Só porque uma pessoa tem cabelo loiro é sequestradora? A justiça de Deus tarda mais não falha e, como sempre, vou estar com ela para o que der e vier".

Antes do linchamento, outra mulher se pronunciava na página Guarujá Alerta, garantindo que não era Fabiane a sequestradora: "Sou mãe, avó e uma pessoa temente a Deus. Tenho ainda a acrescentar que ela não é pessoa da foto. Estou morando no interior e há mais de um ano não vou a Guarujá", afirmou.

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