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Morre designer agredido em livraria

Henrique Pereira foi golpeado com taco em loja da Cultura; ficou 10 meses em coma

Marcela Spinosa e Felipe Oda, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Por dez meses e um dia, o prédio na Avenida Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 255, na zona oeste de São Paulo, foi uma extensão da casa da família Pereira. Elifas, Silvania e Murilo - pais e irmão de Henrique de Carvalho Pereira, de 22 anos - se revezavam para acompanhar, no Hospital das Clínicas, a recuperação do designer, golpeado na cabeça com um taco de beisebol. Ontem, às 5h30, Henrique morreu.

Em 21 de dezembro de 2009, Henrique folheava um livro de culinária na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, quando foi atacado pelo personal trainer Alessandre Fernando Aleixo, de 38 anos. "Foi uma fatalidade. Ele escolheu o Henrique de maneira aleatória", afirma Silvania, de 42.

Desde então, o designer estava em coma no HC. "Meu filho lutou muito pela vida. Foi um guerreiro. Foi e voltou quase dez vezes do centro cirúrgico", se orgulha Elifas, administrador de 47 anos. Na casa da família em Santo André, no ABC paulista, Elifas foi acordado por um telefonema do hospital, às 5h40. "Já até prevíamos que estava próximo. Nos últimos três dias ele piorou", conta. "Mas chegou a hora dele e sei que está num bom lugar", diz Silvania.

Professora, a mãe de Henrique se licenciou para cuidar exclusivamente do filho. "Trabalho com crianças e para trabalhar com elas é preciso estar bem. A minha cabeça era só aqui, no Henrique. Toda mãe no meu lugar faria o mesmo."

Enquanto estava em coma no Hospital das Clínicas, Henrique teve um de seus trabalhos expostos. A "Vaca de Sampa", criada pelo designer, foi exibida na mostra Cow Parade, um mês depois da agressão.

Piora. Nos últimos 20 dias, os pais de Henrique começaram a perceber mudanças na fisionomia do jovem internado. "Desde a última cirurgia que ele "apagou" de vez. Percebi que ele não estava mais ali", diz a mãe. O designer, que em alguns momentos chegou a responder aos estímulos musicais e ao toque dos parentes, "dava sinais que estava partindo", lembra o pai.

"Já estávamos esperando. O médico conversou com a gente na semana passada. Tanto que hoje (ontem), quando veio a notícia, eu tinha acabado de levantar e pedido a Deus para que ele fizesse o melhor para o Henrique", afirma a professora.

Religiosa, a família conta que recebeu "com tranquilidade" a notícia da morte. O pai, espírita, afirma que recebeu uma "mensagem" de Henrique na semana passada. "Ele espiritualmente está bem." Agora, as atenções dos Pereira estão focadas no caçula, Murilo, de 17 anos. "O Murilo recebeu bem, dentro do possível, a notícia. Fomos até o quarto dele e contamos. Mas nos preocupamos porque ele tem o jeito mais caladão", diz Elifas.

Segundo a assessoria do Hospital das Clínicas, Henrique teve falência múltipla dos órgãos. Até as 19h, a causa da morte não havia sido confirmada pelo Instituto Médico-Legal (IML).

Por meio de nota, a Livraria Cultura lamentou a morte de Henrique. Procurada pela reportagem, Judith Aleixo, mãe do agressor, não quis falar com a reportagem.

Silvania diz não odiar Aleixo. "Só espero que o Estado cuide dele para que não possa machucar mais ninguém e deixar uma família sofrer, como fez com a minha nos últimos dez meses."

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Elifas Pereira

ADMINISTRADOR, PAI DO DESIGNER HENRIQUE DE CARVALHO PEREIRA

1. Como Henrique estava nos últimos dias?

Estava muito fraquinho, com pupilas inchadas e a respiração fraca. Já prevíamos que estava próximo. O corpo estava muito fragilizado.

2. O tempo de internação ajudou a família a se preparar para isso?

Nos últimos dias, percebemos que ele já não estava mais ali. Nos preparamos para o pior. Conversamos com parentes e preparamos os avós.

3. Como lembrará dele?

Um rapaz alegre. Por isso, pretendo colocar no velório cartazes com fotos dele.

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