Moradores temem que Mooca perca a 'alma'

Bairro paulistano que era marcado por galpões, fábricas e casinhas ganhou 5.334 unidades habitacionais entre 2006 e 2011

CRISTIANE BOMFIM, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2012 | 03h04

A Mooca já não é a mesma. A força do boom imobiliário, a partir de 2006, começou a mudar a cara do bairro. Galpões abandonados e áreas ocupadas por antigas fábricas, como a da União, estão dando lugar a grandes espigões residenciais. Ruas antes tranquilas têm agora intenso vaivém de veículos. Moradores temem que, com tanta mudança, a região perca sua principal característica: o clima de cidade do interior.

"Como comerciante, acho essas mudanças boas. Mas, como morador, não gosto. Tem trânsito, as lojas antigas estão fechando. Se continuar nesse ritmo, em pouco tempo as pessoas não vão mais se conhecer", diz Reinaldo Di Cunto, sócio-diretor da doceria Di Cunto, uma das empresas mais tradicionais da Mooca.

O maior medo dos moradores é que o bairro perca "a alma". "Não sei explicar, mas é aquela coisa de andar na rua e cumprimentar todos os vizinhos, de conhecer as famílias. É ótimo que galpões vazios sejam reocupados e que bairro se modernize. Mas não pode perder a identidade, a história", diz a vice-presidente da Associação dos Moradores e Amigos da Mooca, Sônia Maria Kremer, de 56 anos.

Entre 2006 e 2011, foram lançadas 5.334 unidades habitacionais no bairro, segundo dados do sindicato da habitação. Somente até maio deste ano, já foram 435 unidades.

Um exemplo do "boom" é a Avenida Cassandoca, que nos últimos seis anos ganhou uma série de condomínios residenciais. Um deles, o Central Park, tem nove torres e apartamentos de até 200 metros quadrados.

"Não tinha nada disso. Eram só casinhas. Agora, é um prédio do lado do outro", diz a comerciante Francisca Ribeiro, de 45 anos. "A região já foi mais tranquila mas, ainda assim, é um bom bairro", conta a comerciante.

Preservação. Segundo o diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, Valter Caldana, as características físicas e cotidianas de uma região poderiam ser mantidas se o mercado imobiliário repensasse o bairro. "O erro é construir um prédio e esquecer o entorno. Os espaços de convívio e toda a infraestrutura tem de atender essa nova população, para que ela faça parte do bairro", explica.

Para Caldana, a principal característica da Mooca é que as pessoas ainda são 'donas das calçadas'. "É uma identidade que precisa ser preservada."

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