Moradores relataram abuso da polícia antes de Amarildo sumir

Líder comunitário conta que havia uma rixa entre policiais e a família do pedreiro, que já teria sido ameaçada na Rocinha

Marcelo Gomes / Rio, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2013 | 02h08

Pouco mais de dois meses antes do sumiço do pedreiro Amarildo Dias de Souza, de 43 anos, em 14 de julho, três moradores da Rocinha denunciaram às autoridades supostos abusos cometidos por policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na favela.

Um dos denunciantes, o líder comunitário Carlos Eduardo Barbosa, o Duda, de 36 anos, diz que um dos relatos feitos ao Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos (CEDDH) em 24 de abril era sobre ameaças feitas contra parentes de Amarildo. Duda também denunciou que seu irmão de criação teria sido torturado por policiais. "A Bete (Elisabete Gomes da Silva, mulher de Amarildo) sempre fazia escândalo quando via algum policial revistando e esculachando seus filhos e outros moradores. Vem daí a rixa entre a UPP e a família do Amarildo".

Um dos seis filhos do pedreiro, Anderson Gomes, de 21 anos, contou que o clima de animosidade teria começado em outubro do ano passado, quando seu irmão Emerson, de 20, foi preso em flagrante por associação para o tráfico. No dia 30 daquele mês, o rapaz foi acusado de ter alertado traficantes da aproximação dos PMs a uma boca de fumo. Os bandidos conseguiram escapar. Nenhuma droga ou arma foi apreendida com Emerson.

Mesmo assim, ele só foi solto em 3 de abril deste ano, quando conseguiu habeas corpus. "Desde que prenderam meu irmão daquela forma injusta, a gente sempre gritava quando presenciava truculência dos policiais contra moradores".

Para o advogado João Tancredo, que representa a família de Amarildo, houve omissão do Estado em relação às denúncias de arbitrariedades supostamente cometidas pela UPP. "Em vez de terem deixado para lá, deveriam ter cobrado respostas da PM".

A Secretaria Estadual de Direitos Humanos - a quem o CEDDH é subordinado - informou que não foi notificada das denúncias. Em e-mail encaminhado ao advogado, a conselheira Thais Duarte disse que após receber Duda, a Comissão de Segurança Pública e Privação de Liberdade do CEDDH esteve na Rocinha e ouviu novos relatos de abusos cometidos por policiais contra moradores, "alguns brandos e outros relativamente graves". Segundo o e-mail, a comissão decidiu marcar uma reunião com o comandante da UPP, major Edson Santos, "mas até o momento não conseguimos nos organizar para marcar essa agenda".

Também conselheiro, Pedro Strozenberg disse ao Estado que a função do conselho é monitorar e fiscalizar as políticas públicas, e não investigar casos de violações de direitos humanos. "Depois que a comissão esteve na Rocinha, tivemos uma reunião com os coronéis Erir (Costa Filho, então comandante-geral da Polícia Militar) e Paulo Henrique (Moraes, então coordenador das UPPs), na qual relatamos as denúncias. Realmente ficamos de agendar um encontro com o major Edson, mas acabou não acontecendo por incompatibilidade de agendas".

Buscas na mata. Policiais civis da Divisão de Homicídios (DH), que investigam a suposta morte de Amarildo, realizaram na manhã dessa quarta-feira, 7, buscas por um corpo que seria do pedreiro na mata na parte alta da Rocinha. Bombeiros com três cães farejadores e o promotor Homero Freitas, responsável pelo caso, também participam das buscas. O delegado Rivaldo Barbosa disse que uma testemunha indicou à polícia um local onde o corpo do pedreiro poderia estar enterrado. Os policiais cavaram buracos na área indicada, mas nada foi encontrado. Após duas horas, os trabalhos foram suspensos. "Trabalhamos com duas linhas de investigação: que a vítima tenha sido morta por agentes públicos ou traficantes", disse Rivaldo, admitindo pela primeira vez que PMs são suspeitos do crime.

Até o momento, cerca de 30 pessoas já foram ouvidas no inquérito, sendo 22 PMs. A polícia vai realizar nos próximos dias uma reconstituição dos últimos passos de Amarildo. O pedreiro está sumido desde 14 de julho, quando foi conduzido por PMs de sua casa até à sede da UPP Rocinha "para averiguação".

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