Moradores paralisam demolição de edifício dos anos 30 na Mooca

Construtora tem projeto para erguer no local um condomínio residencial e 226 vagas de estacionamento

Rodrigo Burgarelli e Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2010 | 00h00

A velha queda de braço entre o mercado imobiliário de São Paulo e os defensores do patrimônio da cidade pode ser resumida em 3.800 metros quadrados de uma pequena travessa da Rua da Mooca. Ali, no número 59 da Rua José Antônio de Oliveira, moradores conseguiram barrar - pelo menos por ora - a demolição de um edifício de 1933, que daria lugar a um prédio residencial de 23 andares bem no coração do bairro da zona leste.

O edifício em questão, conhecido como Creche Marina Crespi, teve a abertura de processo de tombamento aprovada anteontem pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico da Cidade de São Paulo (Conpresp). Isso significa que o órgão admitiu a possibilidade de o edifício ter valor histórico e cultural para a capital e, por isso, precisa de tempo para analisá-lo. Enquanto a decisão definitiva não sair, nenhuma modificação pode ser feita no imóvel sem autorização expressa da Prefeitura. E não há prazo para a votação.

Denúncia. A movimentação em torno desse assunto começou há dois dias, quando moradores denunciaram ao Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) que o prédio seria demolido.

O projeto é da incorporadora Eztec, que pediu autorização à Prefeitura no começo do ano para demolir o edifício e construir um condomínio residencial de 73 metros de altura e 226 vagas de garagem no local.

Antes de a construtora demonstrar interesse pelo lote, uma creche funcionava no prédio antigo, mas as atividades foram suspensas em dezembro do ano passado por causa das más condições de conservação.

O edifício está hoje visivelmente abandonado. Há pichações nos muros, janelas e portas estão quebradas e o mato tomou conta de quase todo o quintal. Nos fundos, ao lado do estádio da Rua Javari, é possível ver que grande parte do antigo prédio já foi destruída. Segundo a associação responsável pela creche, a destruição não é parte do plano de demolição - como temiam os moradores -, mas foi causada por vândalos que teriam roubado peças de metal e madeira do edifício histórico.

Com o fechamento da creche, as conversas de aquisição pela Eztec ganharam corpo, mas a construtora nega que a compra já tenha sido concretizada. Agora, o negócio não deve ser levado adiante até que saia a decisão definitiva do Conpresp.

Proteção. Apesar da disposição atual dos moradores de defender o patrimônio e a decisão do Conpresp de proibir modificações no edifício, tanto o órgão de patrimônio municipal quanto os moradores da região nunca se propuseram a discutir a importância histórica do endereço.

Os conselheiros do Conpresp e os técnicos do DPH jamais pediram a abertura de processo de tombamento do edifício e a associação de moradores não indicou o imóvel como um dos que precisariam ser preservados - houve a chance de fazer isso em 2004, mas o endereço não foi mencionado pelos vizinhos.

Para o Conpresp, no entanto, é "um grande equívoco concluir que a indicação feita nos planos regionais esgotaria qualquer discussão futura sobre imóveis que venham a ser tombados".

O EDIFÍCIO POR DENTRO

O edifício Creche Maria Crespi foi projetado para o conjunto da fábrica de tecidos Cotonifício Crespi pelo arquiteto italiano Giovanni Battista Bianchi. Seu trabalho na Mooca é considerado pelos arquitetos uma relíquia do apogeu industrial de São Paulo. O conjunto de prédios é um exemplo da arquitetura art déco e moderna em São Paulo.

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