Moradores lotam 7 ônibus para ir a enterro de rapaz

Comércio ficou fechado e uma escolta acompanhou o cortejo de 4 km; policial militar acusado de matar estudante foi preso

Luciano Bottini Filho, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2013 | 02h04

A morte do adolescente Douglas Martins Rodrigues, de 17 anos, baleado no peito por um PM, despertou tamanha reação entre moradores do Jardim Brasil, na zona norte de São Paulo, que foram precisos sete ônibus para levá-los ao enterro, no Cemitério do Parque dos Pinheiros, na região do Jaçanã.

O centro evangélico na Avenida Roland Garros, onde ocorreu o velório, ficou pequeno para as cerca de 800 pessoas que se aglomeraram nas calçadas e interromperam o tráfego. O comércio nas redondezas amanheceu fechado - parte por luto, parte por temor de novas manifestações em que foram destruídos ônibus, veículos e orelhões anteontem. "Aqui é o Brasil paralelo", disse o proprietário de uma loja de tintas que fechou as portas tão logo a vizinhança tomou conta da rua. A Força Tática da PM reforçou a patrulha no local com bases comunitárias e um helicóptero sobrevoando o cemitério.

Uma escolta acompanhou o cortejo de 4 quilômetros entre o velório e o enterro. No caminho, o que mais se ouviam eram agressões verbais de moradores contra policiais militares. Nenhum dos vizinhos acreditava na possibilidade de morte por acidente.

O policial militar acusado de matar o adolescente, Luciano Pinheiro Bispo, foi preso e levado para o Presídio Romão Gomes. Ele alega que o disparo que atingiu o rapaz foi acidental. "Um episódio lamentável, mas as providências foram tomadas, o policial foi autuado em flagrante por homicídio. Já está preso. Nós queremos concluir rapidamente a investigação, para que o inquérito seja levado à Justiça e que ela possa analisar e decidir", disse ontem o secretário da Segurança Pública, Fernando Grella Vieira.

Vítima. Os vizinhos alegam que Douglas, que era estudante do 3.º ano do ensino médio, foi abordado pelos policiais e, sem ter reagido, levou um tiro. Os policiais nem sequer teriam falado com a vítima.

Ele estava acompanhado de um colega e do irmão mais novo, de 13 anos. O irmão foi ouvido pela polícia e disse que eles iriam até o pai de um colega avisar que queriam participar de um festival de pipas em Atibaia. Enquanto estavam na Rua Bacurizinho, no Jardim Brasil, conversando com o pai desse garoto, uma viatura passou, deu a volta, e o policial militar que estava no sentado no banco do carona deu um tiro no peito de Douglas.

"Por que o senhor fez isso comigo?", teria dito a vítima, de acordo com o irmão. Ainda segundo ele, os policiais ficaram nervosos e não sabiam o que fazer. Eles demoraram 10 minutos para socorrer o rapaz, que foi levado já inconsciente para o hospital, onde morreu.

O corpo de Douglas foi liberado do IML na manhã dessa segunda-feira, 28. O motorista José Rodrigues, de 44 anos, disse que o filho era um garoto trabalhador e que havia acabado de comprar um carro para usar quando completasse 18 anos, em fevereiro. O veículo, modelo Gol, custou R$ 5,5 mil - metade do valor havia sido paga por Douglas com o seguro-desemprego. "O resto a gente vê o que vai fazer", disse o pai. O rapaz trabalhava em uma lanchonete como chapeiro.

"Gostaria de ser a última mãe a perder o filho desse jeito, mas do jeito que está a Justiça, eu sei que não vou ser", disse a costureira Rossana Martins de Souza Rodrigues.

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