Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Moradores e empresários da Vila Leopoldina sofrem com alagamentos

Bairro que passou por valorização imobiliária na última década não escapou das enchentes que afetaram a Grande São Paulo; região já sofreu com as chuvas em outros momentos

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 18h44

SÃO PAULO - Uma Lamborghini submersa na garagem de um condomínio, outros 40 carros ‘afogados’ em uma concessionária de veículos importados, apartamentos que valem mais de R$ 850 mil reais sem energia elétrica ou água, estúdios fotográficos e produtoras de cinema completamente alagados.

Esse era o cenário em parte da Vila Leopoldina, na zona oeste, um bairro que vive ao menos uma década de valorização e de crescimento imobiliário (a média do metro quadrado na região é de R$ 8.700), mas que não escapou da fúria das chuvas que atingiram São Paulo a partir da madrugada da última segunda-feira, 10.

Às 5h da manhã, o telefone tocou no apartamento da advogada Erika Teixeira, 31 anos, em um condomínio de classe média alta na Avenida Doutor Gastão Vidigal. Era o porteiro avisando que a água estava subindo muito depressa e os carros na garagem estavam em risco. A partir daí, os moradores também se viram sem energia elétrica, com os elevadores parados e com um corte no fornecimento de água. “Eu e meu marido estávamos quase comprando esse apartamento. Depois do que aconteceu, vamos repensar isso. A gente não imaginava passar por algo assim”, contou Erika.

Perto dali, na Avenida Mofarrej, outro condomínio de luxo teria a garagem invadida pela água. Em um vídeo que correu a internet e emissoras de TV, via-se uma Lamborghini sendo completamente tomada pelas águas. O prejuízo estimado é de 1.7 milhões. O proprietário não foi encontrado, mas outros moradores comentaram que ele estava em prantos e que o carro não tinha seguro.

Aliás, a noite de segunda-feira foi bastante agitada no condomínio da Lamborghini. Localizado ao lado de uma igreja batista, os moradores puderem ouvir pedidos de socorro vindos do fundo do templo. Tratava-se de um grupo de 15 missionários, vindos de diversos países, ilhados dentro da igreja. Foi preciso de um bote salva-vidas para o socorro. Sem ter onde ficar, os missionários dormiram e se alimentaram no mesmo condomínio da Lamborghini afogada. “A gente não imagina algo assim acontecendo. Mas o mais importante é que todos estão vivos”, contou a moradora Ana Paula Tieko.

Ainda sobre prejuízos motorizados, o bairro também teve uma concessionária de carros importados invadida pelas águas. Cerca de 40 veículos estavam no local e o prejuízo estimado é de R$ 5 milhões.

A Vila Leopoldina também é um bairro em que a economia criativa está em alta. Agências de publicidade, produtoras de cinema e estúdios de fotografia florescem por lá. O PIC (Polo da Indústria Criativa) amanheceu alagado - com filmes, câmeras e computadores absolutamente perdidos. “Uma catástrofe. A gente já tinha passado por chuvas fortes, mas nada como essa. É um prejuízo que ainda não foi calculado, mas que deve ser bem pesado”, falou Paulo Schimidt, diretor da Academia de Filmes.

Pelo Instagram, o fotógrafo Bob Wolfenson falou sobre os estragos em seu estúdio. “Pelo volume de água, provavelmente perdi coisas do arquivo e equipamentos”. Em outra foto, mostrando o interior de seu estúdio, Wolfenson escreveu: “Depois da inundação trágica, começar a reconstrução”.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Depois da inundação trágica.Começar a reconstrução

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Longe da realidade dos carros importados naufragados, duas favelas da Vila Leopoldina foram gravemente atingidas pela enchente. Nas comunidades da Linha e do Nove, a manhã de terça-feira, 11, foi de tentar recuperar aquilo que foi perdido - colchões, móveis e mantimentos.

Histórico do bairro

No século 19, a Vila Leopoldina era parte de um sítio chamado Emboaçava, que seria vendido para jesuítas alemães. Até quase a metade do século 20, o bairro desenvolveu-se lentamente. A água potável só chegou na década de 1950, junto com o telefone público e o primeiro cinema de rua do bairro.

De região de chácaras e terrenos pantanosos (ruins para morar), a Vila passou a sediar muitas olarias, depois galpões industriais e, há mais ou menos quinze anos, tem visto seu perfil residencial ser contornado com mais força.

Foi em maio de 1969 que a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo surgiu, resultado da fusão de duas empresas mantidas pelo governo do Estado de São Paulo: o Centro Estadual de Abastecimento (CEASA) e a Companhia de Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (CAGESP).

Desde a década de 1990 e até o fim dos anos de 2010, houve uma debandada das fábricas, atraídas por melhores incentivos fiscais em outras regiões do Estado. Nesse período, os donos dos terrenos estavam vendendo seus galpões. Era uma resposta à demanda da expansão imobiliária na cidade. Para as construtoras, era infinitamente mais vantajoso negociar os grandes espaços com um só dono do que empreender a desapropriação de vários imóveis. Além disso, o bairro é valorizado por sua localização: fica no encontro das marginais Pinheiros e Tietê e perto da USP e do Parque Villa Lobos. / (Informações Acervo/Estado)

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