Moradores do Morumbi relatam 'alívio' após ação policial que deixou 10 mortos

Moradores do Morumbi relatam 'alívio' após ação policial que deixou 10 mortos

'Não conseguiu nem trabalhar de tão alterado que ele estava', diz irmão de homem feito de refém durante invasão

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2017 | 13h23

SÃO PAULO -  "Alívio" é a palavra mais utilizada entre os moradores do bairro Morumbi, na zona sul da capital paulista, que falaram com o Estado na manhã desta segunda-feira, 4. Neste domingo, 3, por volta das 19h30, uma quadrilha com cerca de dez homens invadiu uma residência da região, fazendo uma idosa e a filha de reféns. Nas proximidades, pela manhã, ainda havia estilhaços de vidro, roupas ensanguentadas e luvas caídos na rua.

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Minutos após a invasão, o namorado da filha, de 58 anos, foi atacado com uma coronhada ao entrar na casa, sendo também feito de refém - de acordo com o irmão dele, um empresário que se identificou como Marco. "Não conseguiu nem trabalhar de tão alterado que ele estava", comentou.

Morador da região há cerca de 40 anos, o empresário elogia o trabalho da polícia e relata que sua vizinha da frente foi vítima de uma situação semelhante em 2016, tendo depois se mudado para um apartamento. Entre os dois locais, ele aponta que ambos não tinham  muros nem um esquema de segurança elaborado. "Encontraram uma exceção na região e fizeram o crime", aponta.

"A minha casa é um forte apache. Ela tem muros de cinco metros de altura, cerca elétrica de seis fios, sensor infravermelho, sensor IVA, sensor de presença, polícia na rua, polícia dentro da casa", diz ele, que intensificou o investimento em tecnologias do tipo em 2012. "É como a gente tem que viver no País nas relações inversas, aqui o que é certo é errado e o que é errado é certo."

Na esquina em que cinco dos 10 assaltantes foram mortos, uma vizinha de 34 anos, que pediu para não ser identificada, fez questão de visitar o local. Segundo ela, há cerca de seis anos, sua família também foi feita de refém na região e seu irmão foi baleado com dois tiros. Duas semanas após aquela ação, novamente pessoas invadiram a casa.

"Aqui no Morumbi é bizarro. Eu fiquei muito mal durante anos. Voltava da faculdade e não conseguia entrar dentro de casa, começava a chorar", diz. Para ela, os moradores da região vivem em uma "paranoia constante", especialmente quando entram e saem de casa. "As pessoas se despedem na porta de casa e já saem quase arrancando o carro."

Relatos. Moradora da região, a empresária Vera Grilli, de 57 anos, disse que se manteve atrás de uma parede com o marido durante toda a troca de tiros, tendo "criado coragem" somente por volta das 21 horas. "Rezei para não ir na porta da minha casa,  para que acabasse logo", relata. "A quantidade de tiros foi tão gigantesca. Demorou tanto que eu falei 'meu Deus do céu, o que pode ter acontecido aqui? Eu jamais iria imaginar."

Ao sair de casa, lembra ter visto o "pior cenário possível". "As suas emoções ficam anestesiadas. Por um lado, você fica 'ai meu Deus, eu estava esperando ser assaltada e agora não vou ser mais', mas, por outro lado, dá um sentimento de tristeza muito grande, que se chega a esse ponto em uma sociedade", comenta ela, que teve a residência invadida há cerca de nove anos. "A razão pensa assim: 'não é possível que a gente tenha que chegar a esse ponto'.''

Filho de Vera, o advogado Marco, de 36 anos, só voltou para casa por volta das 23 horas de domingo, pois foi alertado pela mãe sobre a situação. Segundo ele, uma vizinha passou por situação semelhante há cerca de duas semanas e, por casos como esse, além das crises política e econômica, planeja se mudar para a Europa em breve.

 

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