Tiago Queiroz/AE
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Moradores de rua fazem ‘camping’ em SP

Com mudança de prefeito, Guarda Civil deixou de recolher à força objetos dos sem-teto, o que acabou incentivando o uso de barracas

Tiago Queiroz e Adriana Ferraz - O Estado de S. Paulo,

08 Junho 2013 | 17h19

Barracas de camping estão associadas a momentos de lazer e aventura, geralmente vivenciados fora dos centros urbanos. Em São Paulo, porém, moradores de rua passaram a adotar o recurso como forma de moradia. A estratégia, usada especialmente contra o frio e a chuva, pode ser facilmente observada nas ruas do centro, onde calçadas, canteiros e praças são tomadas pelas barracas durante a noite.

Com a mudança de gestão, e sob as ordens do promotor de Justiça Roberto Porto, a Guarda Civil Metropolitana deixou de recolher à força objetos usados pela população de rua, como colchões e cobertores - pelo menos na região central. A nova postura incentivou parte dos moradores a comprar ou trocar barracas entre si, apesar de a prática ser proibida pela Lei de Uso e Ocupação do Solo. Outros ganharam de associações que trabalham no centro. A Prefeitura ressalta, no entanto, que a montagem não está liberada.

Com a fiscalização afrouxada, três barracas surgiram na Praça do Patriarca, a poucos metros do gabinete do prefeito Fernando Haddad (PT). "É para não passar frio", diz Vanderlei Marfil, de 42 anos. O ex-vigilante tem uma barraca azul modelo Nautika Panda 3. Foi comprada por R$ 92. A nota fiscal é guardada com cuidado para "mostrar para os homem", em referência a policiais militares.

A barraca azul de Marfil foi comprada há duas semanas. Antes, ele tinha uma pequena barraca laranja, que foi repassada por R$ 15 a Otílio Pires, de 52 anos, um colega da rua. "Consegui o dinheiro desentupindo ralo fedorento dos bares aqui do centro", conta Pires, que já trabalhou como agente funerário e fiscal de ônibus. Os dois são vizinhos. Montaram suas barracas lado a lado embaixo do "chapéu da Marta", como chamam a marquise construída na praça em 2002 pela então prefeita Marta Suplicy (PT).

Moda. Assim como Marfil e Pires, centenas de moradores de rua aderiram às barracas. Há modelos espalhados pelas Ruas Vergueiro, Direita, Quintino Bocaiuva, Pátio do Colégio e Avenidas São João, 23 de Maio e Sumaré. Alguns moradores viraram vendedores de barraca e propagaram a moda.

É o caso de Ricardo do Espírito Santo, de 28 anos, que vive entre as estações de metrô Vila Mariana e Ana Rosa, na zona sul. Em 2011, ele trabalhou como ajudante-geral na Campus Party, feira de tecnologia e, no fim do evento, ganhou 20 modelos. "O pessoal não sabia o que fazer com tanta barraca", diz, mencionando as moradias provisórias utilizadas para abrigar os participantes. "Fiquei com uma e vendi o resto por R$ 50. Fui eu quem espalhou o costume pelo centro", afirma (leia mais nesta página).

De lá para cá, porém, muitos perderam a barraca em ações da Polícia Militar e da Guarda Civil. Padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, ressalta que a repressão policial diminuiu, mas não acabou.

"É por isso que são necessárias outras respostas, outras políticas, como o prometido aluguel social. Não adianta criar vaga em albergue. São 16 mil pessoas nas ruas. Não dá para colocar todo mundo em albergue. Isso é simplista demais."

O advogado Martim de Almeida Sampaio, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, diz que, apesar de o espaço ser público, a Prefeitura não pode tirar do cidadão o direito de buscar proteção, seja contra a chuva, o frio ou mesmo a violência. "É direito fundamental, de preservação à vida. Não dá para combatê-lo sem oferecer nada em troca."

 

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