Diego Moura/Estadão
Diego Moura/Estadão

Moradores de Carapicuíba ficam sete dias seguidos sem água

Denúncia foi enviada para o WhatsApp do 'Estado' pelo líder comunitário do bairro Cidade Ariston

Diego Moura, O Estado de S. Paulo

09 Março 2015 | 16h47

CARAPICUÍBA - Para os moradores da Rua Registro, no bairro Cidade Ariston, em Carapicuíba, o nome da via é um constante lembrete de um problema que se agravou nos últimos meses: falta água nas torneiras, às vezes por até sete dias seguidos. Pressão insuficiente para fazer a água chegar às caixas, sujeira e até gosto de barro são queixas frequentes.

Depois de acionar pelos telefones a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e enfrentar sete dias inteiros sem água, o líder comunitário da região, Carlos Eduardo Ventura, se cansou. Remeteu um ofício à ouvidoria da empresa ameaçando colocar fogo na rua se não houvesse solução. Isso foi em janeiro. No mês seguinte, a situação permaneceu a mesma.

Ventura, então, enviou uma mensagem para o WhatsApp do Estado com a queixa e pediu ajuda. "Tem criança acamada", contou Ventura, no pequeno cômodo de sua casa, que faz as vezes de escritório. "Gente que precisa de cuidado especial."


É o caso do menino Pedro Diniz, de 4 anos. Por falta de oxigenação no cérebro na hora do parto ele não anda, não fala, precisa de aparelho para respirar e fica sob os cuidados de enfermeiros 24 horas por dia. "Quando não tem água no chuveiro eu dou banho de canequinha nele. Mas já teve vários dias que ele ficou sem banho, porque nem água para isso tinha", lembra a enfermeira Zuleide Silva, de 33 anos. O avô de Pedro, o maranhense Carlos Diniz, de 50 anos, fez adaptações na calha para coletar a água da chuva e amenizar o consumo. 

No bairro mais populoso de Carapicuíba, onde moram 45 mil pessoas, as reclamações da falta de água são generalizadas, segundo o presidente da associação de moradores do local, Nezionete Amorim. "A gente paga a conta aqui. Para onde está indo esse dinheiro?", questiona. "A água vem durante três, quatro horinhas à noite - quando vem - e acaba."

No final da longa ladeira onde Amorim mora, na Rua Vicentina Coutinho Ferreira, passa um córrego a céu aberto, bem na porta das vizinhas Andréia Ferreira, de 32 anos, e Érica Gregório, de 19. Com as filhas pequenas, compartilham a enxurrada de lama e sujeira que invade a casa toda vez que chove forte, contraste com a caixa d'água muitas vezes seca. "Ô se enche aqui", diz Andréia. Ambas estão inscritas para uma vaga no Programa Minha Casa Minha Vida. A situação é tão extrema que o vizinho do lado de lá do pequeno rio até instalou chapas de aço nas janelas.

Um pouco mais afastada dali, a dona de casa Cláudia Cristina, de 30 anos, divide uma caixa d'água de mil litros com as quase 20 pessoas que moram de alguém no terreno. Ela estoca água em garrafas de refrigerante e tambores, comprados no depósito ao lado da sua casa.

Quem vendeu foi seu Naamã de Sousa Rodrigues, de 55 anos. "Boa parte do pessoal daqui do bairro é muito pobre e não tem dinheiro para comprar uma caixa d'água e fazer a laje para instalar", explica. Ele orçou em R$ 800 o custo total da instalação de um reservatório completo: caixa com tubulações e peças, laje e mão de obra. "Aqui no bairro, num raio de 1 quilômetro, os depósitos vendiam 90 caixas por dia. Hoje, são em média duas. Quem podia comprar já comprou."

Crise. Em outubro do ano passado, depois de sete dias inteiros sem água, Amorim protocolou um abaixo assinado na Sabesp pedindo medidas contra o desabastecimento e redução na conta. Conseguiu caminhões-pipa da companhia para abastecer as casas das Ruas Registro e Rancharia, em Cidade Ariston.

Entretanto, depois de encher os reservatórios de metade das residências, os motoristas disseram que tinham ordens de seguir para outra localidade, mas que outro colega voltaria para completar o serviço. Os moradores não deixaram. O conferente Valdeu Augusto, de 23 anos, estava no meio do grupo que obrigou os prestadores a abastecer as outras casas.

A tia dele, Maria Augusto, de 50 anos, que sofre com graves sequelas decorrentes de sete paradas cardíacas, teve de ficar vários dias sem banho. "Teve gente que tumultuou a entrega", reclama Amorim. "Nós recebemos até ameaça de um cidadão que queria água na casa dele. O erro da Sabesp foi ter deixado por nossa conta o controle dos caminhões de entrega."

Na Rua Rancharia, Aline Ribeiro, de 26 anos, que participou do cerco aos caminhões-pipa, também convive com os sucessivos cortes de fornecimento. Para alegria das crianças, o banho com canecas virou rotina, e a mãe tem usado até água da chuva para lavar roupa.

Miguel, de 2 anos, foi operado recentemente para corrigir o estrabismo e precisava de limpeza constante para evitar complicações. "Um dia acabou toda a água aqui e a sorte foi uma vizinha ter me dado um pouco", diz. Para piorar a situação, Alina conta que seu marido, ao vistoriar o reservatório, encontrou impurezas na água. Eles suspeitam que a sujeira pode ser a causa do vômito e da diarreia que atingiram a na família toda na última semana.

Vizinho de Aline, seu Onésio Marçal, de 71 anos, não ficou doente, mas reclama do sabor da água. "Vem com gosto estranho, de barro", explica. Ele e a esposa, dona Neuza Vieira, de 68 anos, ao lado dos 12 familiares, já enfrentaram oito dias seguidos de seca. Com seis caixas d'água, apenas uma fica no nível da rua e enche mais facilmente mesmo com pouca pressão na rede. "Eu brinco que a gente tem de usar só um pouquinho de água para lavar o olho, escovar os dentes e lavar os pés. O resto fica para amanhã."

Há também quem se queixe de que o consumo registrado na conta é desproporcional ao, de fato, consumido. Aline, cuja média calculada pela Sabesp foi de 9 metros cúbicos por mês no ano anterior, teria apresentado consumo 200% maior na última conta. Foi multada. "Não entendo como, se aqui a gente tem ficado 4, 5 dias sem água." Na casa do aposentado Pedro Oliveira, de 50 anos, o problema é o mesmo. "Antes de a água chegar fica saindo ar do cano, e o relógio gira", afirma.

Outro lado. A prefeitura de Carapicuíba informou que se reúne com a Sabesp desde 2013 para "discutir a falta de investimento e de água na região, cobrando soluções, que ainda não foram apresentadas". Ainda segundo a nota, o prefeito Sérgio Ribeiro esteve no último dia 4 com representantes da empresa.

A Sabesp, por sua vez, diz que "estão previstos para breve ajustes na região para melhorar o abastecimento nas redes de distribuição local", mas não especifica quais. A empresa alega que na área "ocorre a gestão da pressão nas tubulações, medida que foi intensificada para reduzir o índice de perdas de água" e que os endereços citados se localizam em ponto mais alto e distante dos reservatórios.

A companhia também enviou equipes técnicas no último dia 5 para recolher amostra da água e ressalta que atende aos padrões exigidos pelo Ministério da Saúde. Sobre a entrada de ar na rede, a Sabesp afirma ser "uma situação de exceção" que pode provocar "casos isolados de aumento de consumo" e reforça que quem se sentir prejudicado pode entrar em contato com a empresa pelos telefones 195 ou 0800-0119911 e pedir uma vistoria.

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