Moradores da Vila Ema pedem parque no lugar de prédios

Eles querem que terreno de 17 mil m2 e 477 árvores seja declarado de utilidade pública; área foi vendida para construtora

Márcio Pinho, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2010 | 00h00

Moradores da Vila Ema, na zona leste, se mobilizam para evitar a construção de um condomínio residencial de quatro torres em uma área verde de 17 mil metros quadrados - tamanho de quase dois campos de futebol. O movimento já conseguiu mais de 2 mil assinaturas para um abaixo-assinado que será enviado à Prefeitura solicitando que o local, uma chácara onde viviam imigrantes alemães, seja transformado em parque.

O terreno sempre foi considerado público pela comunidade, já que os donos consentiam que os vizinhos frequentassem a área. Até casamentos chegaram a ocorrer ali.

Segundo Fernando Salvio, de 27 anos, que nasceu e mora no bairro, a ligação dos moradores com o terreno e a falta de espaços verdes no bairro justificam a criação de um parque. Há 477 árvores no local.

"É uma das poucas áreas com árvores da Mata Atlântica da cidade. Ali é possível encontrar cedro-rosa, jabuticabeira, jatobá e palmito-juçara - espécie ameaçada de extinção -, entre outras. Há ainda várias espécies de pássaros naquele espaço", afirma Salvio. Para ele, retirar as árvores é "desperdiçar uma área conservada por anos".

Salvio é criador do blog Viva o Parque. Ele conta que o terreno foi vendido por descendentes dos imigrantes alemães para a construtora Tecnisa, em 2006. A empresa desenvolveu o projeto imobiliário, que está em fase final de aprovação na Prefeitura.

Na entrada do terreno, os moradores manifestaram sua vontade, ao escrever: "Em breve, Parque Vila Ema". A mobilização chegou até a Câmara Municipal, onde dois projetos foram criados pedindo que o terreno seja decretado área de interesse público para a criação do parque.

Os pedidos, porém, parecem não ter sensibilizado o governo municipal até o momento. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) já pediu à Câmara o alargamento da Rua Batuns, onde fica o terreno. A medida poderia facilitar o trânsito de veículos no local, uma vez que o condomínio será um polo de atração de tráfego, com 400 apartamentos.

Alemão. O bairro da Vila Ema foi batizado pelo investidor alemão Victor Nothmann com o nome da mulher, Emma, no fim do século 19, ao lançar loteamento no bairro. Alemães e descendentes migraram então para essa localidade da zona leste. Uma das letras "m" do nome original caiu em razão da caça aos nomes de instituições em alemão e italiano durante a Segunda Guerra, contam moradores.

Acostumados a viver em um bairro antes só de casas, eles condenam a chegada dos espigões. Rolf Balt, morador de 79 anos e descendente de alemães, conta que viu o bairro crescer e que a área verde tornou-se uma espécie de coração do bairro.

"Conheci os avós, os filhos e os netos da família que morava ali. Às vezes, eu entrava para passear. Nos últimos tempos, com a cidade mais violenta, a entrada já não era tão fácil", conta. Ele afirma que a perda do verde no bairro já afetou a qualidade de vida dos moradores.

Verde. A Tecnisa diz que tem como preocupação a manutenção do verde na região. Por isso, serão preservados 313 espécimes originais, removidos 29 espécimes mortos e retirados 73 nativos e 62 exóticos, todos de menor importância, por seu tamanho ou estado fito-sanitário, conforme laudo realizado por empresa contratada pela Tecnisa.

A construtora afirma ainda que vai doar para uso no entorno do terreno 1.862 mudas de espécimes nativos da flora do Estado.

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