Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

PM faz reintegração de comunidade Nelson Mandela, na Grande SP

Ação deve durar três dias; alguns moradores resistiram e atearam fogo em barracos, mas não houve confronto com a Polícia Militar

Tulio Kruse e Maria Eduarda Chagas, O Estado de S. Paulo

09 Junho 2015 | 08h01

Atualizado às 11h25

SÃO PAULO - A reintegração de posse que se iniciou por volta das 6h desta terça-feira, 9, na comunidade Nelson Mandela, em Osasco, na Grande São Paulo, deve durar três dias para ser concluída. Cerca de 12 mil pessoas estão sendo retiradas de uma área com aproximadamente 200 mil metros quadrados e 3 mil barracos após uma operação da Polícia Militar que ocorreu sem confrontos com moradores.

Ao amanhecer era possível ver dezenas de barracos queimados como forma de protesto. Dois adolescentes foram apreendidos e um homem, detido, por volta das 9h30, por suspeita de incêndio criminoso. Os três negam envolvimento.

Ao menos 170 policiais, 20 homens da cavalaria e cinco helicópteros foram usados na operação. Não houve feridos, e a avaliação da polícia foi positiva.

Dois menores, de 16 e 17 anos, e um adulto, de 20, foram levados ao 10º Distrito Policial (Jardim Baronesa) de Osasco e serão acusados de incêndio criminoso.

O adolescente de 17 anos estava acompanhado do tio, que afirmava que os verdadeiros incendiários haviam deixado a favela logo após o fogo, nas primeiras horas da manhã.

"Eles estão dizendo que toquei fogo em um dos barracos, mas eu estava ajudando as pessoas a tirar documento de dentro da casa, pois o fogo pegou no barraco ao lado", disse um dos suspeitos.

A maioria dos ocupantes, avisados da reintegração de posse, começou a fazer sua mudança no fim de semana.

"Isso está sendo conversado há meses com a população, e temos a ajuda de muitas corporações como a polícia municipal, os oficiais de Justiça, os bombeiros e o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência)", disse o capitão Márcio Agamenon Souza, da PM. "Então, apesar de o problema social ser lamentável, estamos tentando fazer com que tudo transcorra bem."

O maior efetivo do Corpo de Bombeiros ficou no lado oeste da favela e, com dificuldade para entrar na favela com o caminhão, teve problemas para apagar o fogo.

Trânsito. A comunidade se localiza nas margens do Trecho Oeste do Rodoanel, na divisa de Osasco com Barueri. Por causa da reintegração, a via foi fechada pela PM do km 6 ao 16, nos dois sentidos, por cerca de três horas. A liberação total do anel viário aconteceu às 8h30. 

A interdição do Rodoanel provocou congestionamentos em estradas da região. Às 8h30, a Rodovia dos Bandeirantes registrou 11 quilômetros de lentidão em direção à capital, do 24 ao 13. Já a Anhanguera tinha 10 quilômetros, do 32 ao 22, enquanto a Castelo Branco, 7 quilômetros na pista marginal, do 20 ao 13. 

Mudança. Cerca de 90 caminhões faziam a mudança dos moradores, a maioria com um destino provisório na casa de parentes. Alguns moradores saíram da comunidade para evitar o confronto, como a desempregada Renata Marcela, que às 6h30 passava aos prantos na entrada da favela com seu filho de um ano no como.

"Muita gente não saiu ainda porque vai tem para onde ir, eu mesma não sei o que vou fazer", declarou Renata.

Em meio à mudança, moradores retiravam as fiações, canos, telhas e móveis das redondezas. Cerca de 200 pessoas foram contratadas pela prefeitura de Osasco para fazer o carregamento dos caminhões de mudança.

Alguns moradores não tem destino definido, como o carteiro Edvan Souza, de 47 anos. "O que eu acho errado é deixarem ocupar antes, para depois tirar a gente daqui", reclamou.

Quando se mudou para a ocupação, há oito meses, foi informado pela associação de moradores que o dono do terreno, a empresa Dias Martins S/A Mercantil e Industrial, faria um acordo para vender o espaço à comunidade. Há três meses, a Justiça acatou o pedido da empresa para reintegração de posse.

Natural de Ilhéus, na Bahia, Souza disse que encontrou pouca oportunidade de emprego em São Paulo e que pensa em voltar ao seu Estado. "E a gente ouve dizer que tem direito a moradia, educação e saúde. Está na lei, mas não tem nada disso", comentou o carteiro.

A reintegração foi determinada pela juíza Ângela Moreno Pacheco de Rezende Lopes, da 2ª Vara Cível do Foro de Osasco, solicitada por Dias Martins S/A Mercantil e Industrial, proprietário da área.

De acordo com a SSP, a PM participou de reuniões com oficiais de Justiça e representantes de órgãos envolvidos na ação, como Conselho Tutelar, Secretaria Municipal de Obras de Osasco, Secretaria Municipal de Assistência e Promoção Social, Ministério Público, Defensoria Pública do Estado de São Paulo e Secretaria Municipal da Saúde.

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