DANIEL TEIXEIRA / ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA / ESTADÃO

Moradores ajudam nas buscas após deslizamentos em Franco da Rocha

Vizinhos fazem turnos e se revezam para auxiliar o Corpo de Bombeiros na tentativa de encontrar sobreviventes; cinco pessoas morreram na cidade

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2022 | 17h41

O movimento de sobe e desce na sua São Carlos, no bairro Parque Paulista, em Franco da Rocha, na Região Metropolitana de São Paulo, mostra o senso de comunidade das pessoas que viram de perto mais uma tragédia no verão brasileiro. O desmoronamento que causou cinco mortes até o momento - algumas pessoas permanecem desaparecidas - envolveu os moradores na busca.

O Corpo de Bombeiros está no local, mas dezenas de moradores também estão ajudando nos trabalhos. Um deles é Altino Nascimento, de 45 anos. "Eu vim no domingo à tarde e voltei nesta segunda-feira. Estamos fazendo turnos e nos revezando para ajudar. Tem muita gente colaborando e os bombeiros estão ajudando a organizar", contou.

Como ele tem experiência com obras pesadas, com fundação de casas, sabe no que está se metendo. "Mas nem de longe tenho o conhecimento dos bombeiros, que sabem fazer isso. Estou apenas ajudando. Lá embaixo está um cenário de guerra, estamos procurando agulha num palheiro", diz.

Além dos voluntários que estão com lama dos pés às cabeças, outros ajudam para conseguir alimentos e produtos de higiene. Gerson Marques costuma fazer boas ações com o irmão nas épocas de Natal, mas agora a missão é por um motivo triste. "Nós estamos arrecadando toda ajuda possível. A gente sempre fez isso pelo amor, hoje infelizmente é pela dor", comenta.

Ele revela que sua prima, que está grávida, conseguiu escapar do desastre. Ela mora em uma casa que foi atingida pelo deslizamento de terra, mas conseguiu escapar a tempo. "Meu tio sentiu a água escorrer e ouviu uns gritos. Ele, então, viu a terra descendo e conseguiram escapar", continua.

O tio e a tia de Gerson, assim como dois primos, a prima grávida e o marido dela se salvaram. Mas o mesmo não aconteceu com um amigo do bairro. "O Anderson era amigo nosso, jogava bola com a gente. Isso tudo é muito triste", lamenta. Seu colega Júnior Lemos, de 29 anos, também perdeu conhecidos. "Morreram quatro pessoas que eu conhecia, um deles era primo de um amigo meu", lamenta. "Aqui, às vezes tem enchente, mas nunca teve um deslizamento como esse. Quando começou a desmoronar, o pessoal já foi chegando e agora todos estão ajudando nas buscas."

CENTRO ALAGADO

A cidade de Franco da Rocha também sofreu com uma enchente no centro da cidade. Até a prefeitura ficou debaixo d'água. A comerciante Erica Garcia, proprietária de um restaurante, estava limpando o salão com lágrimas nos olhos. "A água chegou à altura do nosso fogão. Perdemos dois freezers, duas geladeiras e muitas outras coisas", disse.

"A gente não trabalha de domingo. E neste dia pela manhã estava tendo feira, nem estava chovendo. De repente, alagou tudo. É muito duro porque estamos vindo de dois anos de pandemia e agora acontece isso. Eles falam que não, mas acho que abriram as comportas da represa Paiva Castro."

Outros moradores ouvidos pela reportagem do Estadão falaram que um alagamento desse tipo só ocorre quando as comportas são abertas. Tanto a Prefeitura de Franco da Rocha quanto a Sabesp negam que tenham feito tal operação, que serviria para diminuir a quantidade de água na represa e evitar um rompimento.

"Ontem (domingo) o risco existia, mas não foram abertas as comportas. Existe uma margem de segurança", explicou Dr. Nivaldo, prefeito de Franco da Rocha, No domingo a represa estava 78,7% cheia, nesta segunda-feira já passa dos 80%. Caso continue a chover na região, é possível que as comportas sejam abertas. No momento, os técnicos da Sabesp fazem o bombeamento da água para outros sistemas. A prefeitura alega que a enchente no centro foi devido ao excesso de chuva em 24 horas, com 160 mm.

APOIO AOS DESABRIGADOS

A prefeitura de Franco da Rocha montou quatro locais para atender os desabrigados pelas chuvas na cidade. Esses pontos de acolhimento contam com colchões, alimentação e itens de higiene. A reportagem do Estadão visitou dois deles, que estavam bem limpos e organizados, mas no momento estavam sem nenhuma família. Segundo a prefeitura, é comum nessas horas as famílias desabrigadas optarem por ficar em casas de parentes. Mas eles poderão buscar o aluguel social com uso de verba já liberada pelo governo do Estado.

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