Moradora de rua é queimada no ES; no País, 1 é morto a cada 2 dias

Jovem de 16 anos teria confessado ataque a mulher de 64 anos, que dormia; no DF, ministra defende criação de delegacia especializada

CÍNTIA BRINGHENTI , ESPECIAL PARA O ESTADO , VITÓRIA, O Estado de S.Paulo

16 Março 2012 | 03h05

Um jovem de 16 anos foi apreendido ontem, acusado de incendiar a moradora de rua Marinalva Silva Alves, de 64 anos, em Linhares, no norte do Espírito Santo. De acordo com a Polícia Civil, a mulher teve 70% do corpo queimado enquanto dormia em uma quadra abandonada. De abril de 2011 até a semana passada, 165 moradores de rua foram mortos no Brasil - 1 a cada 2 dias. O avanço da violência já faz o governo federal sugerir até delegacias específicas para essa população.

A vítima de ontem foi socorrida somente no fim da manhã e levada para o Hospital Geral de Linhares, de onde foi para o Centro de Tratamento de Queimados do Hospital Dório Silva, na Serra. Outros quatro moradores de rua, que também dormiam no local no momento do crime, conseguiram fugir. Segundo o chefe do Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) de Linhares, delegado Fabrício Lima, eles tentaram avisar a vítima, mas sem sucesso.

Segundo o delegado, o jovem mora perto do local e foi lá já com a intenção de atear fogo nos colchões. "Ele é viciado em drogas e cometeu o crime porque se sentia incomodado com a presença dos moradores de rua na região."

O adolescente foi detido em casa, onde também teria confessado o crime. O pai, que acompanhou o depoimento dado aos investigadores, estava transtornado. "Ele não esperava que acontecesse isso com o filho dele, que estuda. Não sabia, mas o menino usava drogas. Ele só percebeu que o adolescente chegou transtornado em casa. E descobriu o crime quando nós chegamos", disse Lima.

Apreendido em flagrante, o menor será encaminhado para a Unidade de Internação Socioeducativa. O caso foi registrado como "fato análogo de crime por tentativa de homicídio".

Para o delegado Fabrício Lima, os recentes casos que ocorreram em outras cidades podem ter incentivado o jovem a cometer o crime. "Foi a primeira vez que aconteceu aqui, e pode ser reflexo do que aconteceu em outras regiões. Isso pode ter potencializado a vontade desse adolescente", afirmou o chefe do DPJ.

Estatísticas. Representantes de entidades de moradores de rua de todo o País se reuniram ontem em Brasília para denunciar que há uma escalada da violência contra essa população no País, possivelmente ampliada pela impunidade. De 165 casos levantados pelo Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (CNDDH), desde abril de 2011 até a semana passada, 113 terminaram sem que a polícia apontasse suspeitos ou culpados. Houve ainda 35 tentativas de homicídio.

"Já conversei com alguns governadores e meu pedido é que cada Estado tenha ao menos uma delegacia especializada para a população de rua", disse a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, que compareceu ontem a uma reunião extraordinária do Comitê Intersetorial de Monitoramento da População em Situação de Rua, no Distrito Federal. O encontro foi convocado após um comerciante de Brasília pagar assassinos pela morte de moradores de rua.

Para Maria do Rosário, a medida também aliviaria o Disque 100, serviço da Presidência da República que recebe denúncias sobre violações de direitos humanos. Considerando apenas a população de rua, houve 453 denúncias no ano passado. Por Estados, o ranking de queixas traz à frente São Paulo (120), Paraná (55), Minas Gerais e o Distrito Federal, ambos com 33 casos denunciados. /COLABOROU ÍTALO REIS

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