MORADOR PÕE MÓVEIS NO ALTO NA 'CASA DE GIGANTE'

Residências na Rua Venâncio Aires, na Pompeia, são invadidas pelas águas das chuvas todos os anos: 'A gente se adapta', diz publicitário

O Estado de S.Paulo

24 Março 2012 | 03h05

O publicitário Gabriel Gomes, de 40 anos, cansou de ver os móveis de casa boiando e os eletrodomésticos submersos todos os anos. Aproveitou de sua habilidade em trabalhos manuais para criar suportes antienchente que põem no alto armário, fogão e geladeira, bem acima do nível que a água atinge quando começam as chuvas.

Gomes mora na Rua Venâncio Aires, na Pompeia, zona oeste da capital. Ali, a enchente não é dúvida. Cedo ou tarde, ela chega todos os anos. "Comprei (a casa) bem mais em conta sabendo do problema, mas uma hora isso tem de ser resolvido", diz ele, que mora há seis anos no endereço.

Enquanto isso, ver Gomes utilizando os eletrodomésticos dá a impressão de que se está em uma casa de gigantes. Ele e a mulher já acostumaram a manejar as panelas do fogão na altura do ombro. Para pegar algo no congelador, é preciso se esticar. "A gente se adapta", diz.

Não são todos que têm a mesma criatividade, mas, sim, todos se adaptam. Na Rua Venâncio Aires há comportas na frente de todas as portas. Todo mundo cuida para manter novas as borrachas que impedem que a água entre pelas frestas. Mas às vezes a enxurrada é tão poderosa que o obstáculo de nada adianta. A água chega na altura das janelas.

O professor de Matemática João Levi Goulart, de 47 anos, conta que o jeito é ficar em casa quando chove. "Já cansei de perder compromissos em dia de enchente", diz. Da janela, os moradores observam até carros sendo levados pela força das águas.

Antes mesmo de o asfalto chegar, a rua já sofria com esse tipo de problema. Quando a aposentada Ivone Sequini de Moraes, de 84 anos, chegou, recém-casada, à casa onde mora até hoje já havia enchente. Passaram-se 50 anos desde então. Nesse meio tempo, ela criou o filho em meio às inundações.

"Ele fazia barquinhos de papel e jogava pela janela", diz. Há muito, o filho já cresceu e mudou-se para longe dali. "Estou no fim da minha vida, mas ainda tenho esperanças de ver a situação resolvida." / A.R.

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