Morador de rua monta barraco na Paulista

Ninguém na região sabe seu nome ou idade; ele nada fala com ‘vizinhos’

Felipe Resk e Paula Felix, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2014 | 03h00

A Avenida Paulista tem 3.138 empresas, 46 agências bancárias, 14 bancas de jornal. E um barraco. Apesar do contraste, são poucos os que parecem notar sua existência. Recostado no muro de um prédio de quase 20 andares, no número 750, o abrigo não mede mais do que meia dúzia de palmos e acomoda só uma pessoa.

Segundo comerciantes, o barraco está ali há cerca de um ano. A habitação tem rodas e, em dias de sol, ele a arrasta como uma carroça da Avenida Brigadeiro Luís Antônio até a Praça da Sé, na região central, à procura de recicláveis. Às 16h, costuma estar de volta. Quando chove, aproveita para dormir, encolhido sob a lona e papelão que servem de telhado, com o rádio de pilha transmitindo notícias. A Voz do Brasil é sagrada.

Na Paulista, gosta de sentar em uma cadeira de ferro e ler jornais. “Ele fica de pé, folheando. Depois, devolve”, contou a vendedora de uma banca, onde ele compra cigarro, fósforo e pilha. Usa sempre um chapéu tipo pescador e, invariavelmente, está de banho tomado. Outro costume é fazer café em um fogão de duas bocas. “Dá para sentir o cheiro daqui”, disse o manobrista Pedro Mariano.

Há poucas certezas sobre o homem. Uma delas é que detesta ser incomodado. “Ele fica mais na dele, mas não rouba nem machuca ninguém”, disse a vendedora da banca.

Marinha. Pelos frequentadores da região, é chamado de “velho”, “barbudo” ou “tiozinho da naval”, porque, supostamente, seria um fuzileiro reformado da Marinha. O nome mesmo ninguém se deu o trabalho de perguntar. A idade, tampouco. Os palpites vão de 60 a 80 anos. 

Há burburinho de que teria passado dez anos na Casa de Detenção do Carandiru. “Ele já me falou isso, mas fico procurando tatuagem, um sinal de que ele tenha passado por lá, mas nada”, disse o segurança João Carlos Pereira, um dos poucos em quem o homem confia.

O comportamento introspectivo o ajudou a ser aceito na região pelos comerciantes. “No começo, a gente ficava com receio. Depois, vimos que ele não fazia mal”, afirmou uma comerciante. Há até quem nunca tenha percebido sua presença, mesmo trabalhando há anos em lojas da avenida.

Segundo relatos, o homem não é visto com outros moradores de rua. Também não entra em um estabelecimento se estiver lotado. Perto do barraco, há pouco lixo. Certa vez, teria cozinhado arroz demais e resolveu alimentar os pombos com as sobras; foi quando levou dura de um policial, por causa da sujeira. Fez questão de limpar.

O problema é quando tentam interferir em seu espaço. “Outro dia, ele queria pegar um moleque que chutou o balde dele”, contou Pereira. Procurado pela reportagem, o homem enfatizou que “não queria ser importunado”. Disse ser de esquerda e citou Karl Marx e Hegel. Ele correu por três quadras atrás do fotógrafo que havia feito uma imagem dele.

Assistência. “Se ele não está fazendo escândalo nem atentando contra a moral, a Prefeitura não tem de retirá-lo de lá”, disse o pesquisador Eulálio Figueira, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Já para o promotor de Habitação e Urbanismo Maurício Ribeiro Lopes, a rua não pode ser apropriada por um morador. 

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) afirmou, em nota, que aborda e encaminha moradores de rua para centros de acolhida.

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