Morador de rua de Londres é guia turístico

Projeto quer mostrar pontos e histórias da cidade que só os sem-teto podem contar

Anita Pati, The Guardian, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Numa noite de ventania em agosto, duas guias acompanham um grupo de turistas perto da London Bridge num incomum passeio pela capital britânica. As duas são donas de longas e caóticas histórias de vida nas ruas, o que permite a elas partilhar com seu público episódios do cotidiano de uma sem-teto, além dos comentários típicos que acompanham as atrações turísticas.

"Dormi embaixo desta ponte por seis meses", diz Viv Askeland, de 54 anos, apontando para a Ponte Blackfriars, que cruza o Tâmisa. Sua colega, Hazel Wilding, de 52, acrescenta: "Quando dormia sozinha, tentava me certificar da presença de câmeras ao meu redor."

As duas fazem parte da força de trabalho da Unseen Tours (algo como Passeios Inéditos), projeto-piloto que ajuda os sem-teto a encontrar empregos sustentáveis como guias de passeios.

Hazel faz uma pausa diante do Museu Clink, construído no local de uma prisão medieval numa rua de paralelepípedos. "Isso me deixa muito aborrecida", diz ela, antes de contar ao público de cerca de 30 pessoas a respeito das chamadas gansas de Winchester - prostitutas que trabalhavam nos bordéis locais e eram administradas pelo bispo de Winchester, dono da prisão.

O passeio chega ao fim no antigo cemitério de Cross Bones, reservado para as prostitutas e agora um estacionamento abandonado. "É aqui que as gansas de Winchester eram enterradas", diz Hazel. "Trata-se de um cemitério para os mortos que a sociedade rejeitou."

Viv, que passou os últimos 10 anos dormindo em sofás e nas ruas depois de se divorciar do pai de seus dois filhos, diz que o impacto social que seus passeios terão no público é importante. Hazel gostaria também que os participantes "compreendessem melhor o que significa morar nas ruas". E acrescenta: "Conheci uma senhora atrás do Savoy que tinha sido diretora de escola. Os sem-teto têm histórias de vida das mais variadas." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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