Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

'Se fosse eu que tivesse feito, estaria preso', diz morador de rua agredido por GCM

Samir Ali Ahmed Sati, de 40 anos, teve o braço engessado após fraturar o punho; dois dos agentes envolvidos no caso seguem trabalhando nas ruas

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2017 | 18h29

SÃO PAULO - “Foi um abuso. Se fosse eu que tivesse feito isso com ele, a uma hora dessas, eu estaria preso”, afirmou Samir Ali Ahmed Sati, de 40 anos, nesta quinta-feira, 4. No dia anterior, o morador de rua foi agredido com empurrões e uma rasteira por um agente da Guarda Civil Metropolitana (GCM) nas imediações da estação Conceição do metrô, no Jabaquara, região sul de São Paulo. As imagens da ação foram postadas no Facebook pelo estudante de Jornalismo Marcos Hermanson e tiveram mais de 175 mil compartilhamentos em 24 horas.

Ao Estado, Sati relatou que precisará utilizar gesso no braço direito durante 120 dias após ter o punho fraturado pela agressão. Segundo ele, não está descartada a possibilidade de que precise ser submetido a uma cirurgia. Ainda na noite de quarta, ele foi encaminhado para um centro de acolhida municipal no Brás, região central, juntamente com sua companheira Mirella Nunes Ramos, de 37 anos, com quem mantém uma união estável há mais de oito anos.

“Conheci ele no meu último estupro. Ele me viu violentada, cheia de sangue e fezes no chão. Me levou para uma casa de acolhimento, para atendimento médico. Hoje ele é a única pessoa que eu tenho, ele e o meu sogro, que está com 84 anos”, confidencia.

Com o marido, Mirella teve duas filhas gêmeas, Jéssica e Patrícia, de 5 anos, que eles afirmam não ver há cerca de um ano. “Dizem que foram para adoção, mas eu não acredito”, afirma a mulher, que não sabe dizer que entidade lhe retirou a guarda das crianças. Além das meninas, ela também é mãe de Leonardo, de 17 anos, que vive com o pai. “Quero reencontrar a minha família, ver o meu irmão, meus filhos, quero uma vida normal, como todo mundo tem.”

Outro sonho relatado pela mulher é arrumar uma moradia. “Quero uma casa para mim. Ver o meu marido no fogão fazendo comida árabe (ele é descendente de libaneses), quero comer em restaurante, ir na manicure, na pedicure, no cabeleireiro, ter uma vida de princesa como a que as pessoas mostram nas redes sociais.”

O casal vivia há pelo menos três semanas na rua, dormindo em calçadas, lavando roupa em abrigos e se alimentando com o que conseguiam de doações de pedestres. Antes disso, trabalharam como vendedores ambulantes de chocolates e refrigerante, situação na qual dizem terem tido mercadoria confiscada.

No carrinho retido, por dois funcionários terceirizados da Prefeitura Regional do Jabaquara, eles mantinham roupas, cobertores, dois relógios, medicamentos para a esquizofrenia e o ácido úrico (de Mirella) e dois celulares, em um dos quais estava o contato do trabalho informal que Sati começaria nesta quinta-feira em uma obra, na qual seria assistente de pedreiro e receberia R$ 120 por dia. “Além de tudo, tinha uma questão afetiva com os nossos pertences. E não tinha nada de errado, cachimbo a gente já largou faz um tempo”, diz Mirella.

Prefeitura. Durante evento oficial no Comando Militar do Sudeste, no Ibirapuera, zona sul, o prefeito João Doria afirmou que os guardas “agiram mal” e que o caso será utilizado como “referência” para a GCM de como se não deve abordar moradores de rua. “Nada justifica a violência, rigorosamente nada. Nesse caso especialmente, eu assisti três vezes a cena e não houve nenhuma reação do rapaz, nada que motivasse uma atitude de força. Isso não se repetirá. Eu tenho certeza absoluta que a Guarda saberá tomar as providências necessárias junto às investigações”, declarou.

Segundo Doria, a gestão municipal realizará o acolhimento integral do casal, que receberá apoio emocional e profissional, inclusive com o encaminhamento para um emprego. Além disso, caso não sejam recuperados os pertences, novos serão destinados ao casal.

Ainda na quarta-feira, 3, foi anunciado o afastamento para “atividades operacionais” do guarda que cometeu as agressões, de acordo com a Secretaria Municipal de Segurança Pública. Os outros dois envolvidos no caso serão ouvidos, mas permanecem em atividades nas ruas, de acordo com o secretário da pasta, coronel José Roberto Rodrigues. Doria admitiu, contudo, que eles poderiam ter interferido no incidente. “Pelo o que vi, a agressão foi feita por um agente, mas, mesmo assim, com o acompanhamento de outros dois, que poderiam ter impedido."

Tanto a Prefeitura quanto a secretaria tratam o assunto como um caso isolado, o que é refutado pelo Padre Julio Lancellotti, ligado à Pastoral Povo da Rua. “São muitos os casos. Esse só é diferente porque foi filmado e divulgado. Infelizmente, situações como essa são recorrentes”, relata.

O caso. Segundo Sati, ele havia deixado um carrinho de supermercado com seus pertencentes na rua quando saiu para comprar água. Ao retornar, avistou três guardas próximo aos seus objetos, que pediram para que apresentasse algum tipo de comprovante de posse. Ao informar não ter a documentação, ele foi sido agredido por um dos guardas, com empurrões e uma rasteira. “É tudo o que tenho”, repetia no vídeo.

No boletim de ocorrência, um dos guardas afirma que a agressão ocorreu após o morador de rua reagir “bastante exaltado” ao ser revistado. “Com medo de que ele tentasse pegar seu revolver e causasse mal ao declarante, aos fiscais, aos populares que estavam presentes e, mesmo para sua própria integridade física, empregou uma rasteira em Samir, que passou a se debater e a resistir a ação do declarante o qual, por vezes tentou algemar Samir mas não conseguiu. Que na tentativa de imobilizar Samir, o declarante acabou por derrubá-lo novamente e, após uma queda, Samir parou de se debater sendo conduzido até esta distrital sem necessidade de ser algemado. Que, assim que Samir parou de resistir à ação oficial do declarante este, de pronto, deixou de utilizar a força necessária e o uso progressivo da força para conter Samir.”, diz o registro. 

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