Morador de área de risco vai para CDHU com falhas

Prédios em Praia Grande para os inscritos no Programa de Revitalização da Serra do Mar têm rachaduras e vazamentos

Rejane Lima / Praia Grande, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

Em 16 de março, Maria das Dores de Lira, de 65 anos, deixou a casa onde morava há cinco anos no Grotão, uma das áreas de maior risco de Cubatão, e mudou-se para Praia Grande. Mas o que era para ser a realização de um sonho trouxe aborrecimento. Como ela, dezenas de moradores transferidos pelo Programa de Revitalização da Serra do Mar reclamam da precariedade dos conjuntos Vila Sônia e Andorinhas da CDHU.

"Será que eles pensaram que só porque eu sou velha tenho de morar em um lugar desses? Com esse cheiro de mangue e todo mofado?", questionou Maria, que vive com a neta, de 12 anos, em um apartamento térreo de dois dormitórios do Conjunto Andorinhas da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano no bairro de Vila Sônia. Com mofo e rachaduras no piso e nas paredes, a aposentada conta que ela e a neta pioraram de rinite e alergias, mas indigna-se mesmo ao mostrar que parte do teto do seu banheiro despencou há dois meses. "Falavam que lá onde eu morava era área de risco, mas lá meu teto nunca caiu. Já vieram várias pessoas da CDHU ver isso aqui. Há um mês disseram que no dia seguinte iam tapar esse buraco (queixa-se, apontando o teto do banheiro) e até agora nada." Pelo imóvel, financiado em 25 anos, ela paga uma prestação de R$ 385,39.

Vazamento e mau cheiro. Cada um dos conjuntos recebeu 160 famílias vindas de Cubatão. "A gente está preocupado porque não quer que o nosso conjunto chegue ao estado do Andorinhas", disse Maria Carolina Viera da Silva, de 30 anos, uma das representante dos moradores do Vila Sônia.

Ela ficou espantada ao ver o tamanho do vazamento de esgoto do residencial vizinho. No seu condomínio, o vazamento nas caixas de gordura é menor, mas mesmo assim tem forte odor e atrai insetos. A maior preocupação de Maria Carolina é que ocorram desabamentos ou explosões. "No bloco 8 tem vários botijões do lado de dentro dos apartamentos porque os canos estão entupidos", observa.

"O bloco 4 está condenado de tanta rachadura na estrutura que tem", completa a dona de casa Suene Margarida Alcântara Anjos, de 42 anos, outra representante dos moradores. O grupo pede que a CDHU faça um laudo sobre as rachaduras no local e conserte o que for preciso. "Anteriormente, diziam que ficariam um ano de plantão aqui para ajudar a gente e nós ficaríamos também um ano sem pagar condomínio. Depois que mudamos, eles sumiram, não atendem aos telefones e já chegou uma conta de R$ 60 de condomínio", completa.

Mecânico de Manutenção da Usiminas, Ricardo da Silva, de 24 anos, também reclama da umidade nas paredes e no teto do imóvel, onde mora com a mãe e a irmã e pelo qual vai pagar R$ 78 por mês nos próximos 25 anos. Como ele, vários moradores do condomínio continuam trabalhando em Cubatão e com isso demoram muito mais tempo no deslocamento entre casa e empresa. "Quando eu morava na Vila Fabril não pagava prestação e demorava 10 minutos para ir trabalhar. Agora levo 40 minutos, isso porque tem fretado da empresa, mas a minha irmã que demorava 20 minutos está levando uma hora e meia", completa.

Outro lado. Em nota, a CDHU informou que a equipe enviada ao local para resolver os problemas referentes ao esgoto e a caixa de gordura constatou que há rompimento no encanamento. "Por se tratar de um empreendimento adquirido da Caixa Econômica Federal, técnicos da empreiteira que construiu o residencial já foram acionados para resolver o problema", diz a nota, que não esclarece a respeito de rachaduras, mofos e mau acondicionamento dos botijões.

A respeito do monitoramento local, a CDHU também contradiz os moradores e afirma que "conforme a companhia informou, durante o processo de adesão, as equipes de pós-ocupação vêm acompanhando regularmente as famílias no processo de adaptação à moradia, já que estavam acostumadas a morar em casas e não em condomínio de convivência mútua."

Para entender

Plano é cumprir 50% de remoções neste ano

O programa de Revitalização da Serra do Mar foi anunciado em junho de 2007 como o maior programa de recuperação ambiental do País e bandeira do governo do Estado. Orçado em mais de R$ 700 milhões, é implementado em conjunto pelas Secretarias de Habitação e Meio Ambiente e Polícia Militar. Inicialmente, para evitar novas invasões, a PM passou a monitorar a área à margem da Via Anchieta, que compreende os bairros Cota-95, Cota-100, Cota- 200, Cota-400, Água Fria, Pilões, Sítio dos Queirozes, Pinhal do Miranda e Grotão. Paralelamente, a CDHU realizou o cadastramento de moradores, incluindo os de área de risco e os que estavam em habitações consolidadas e com conforto.

Feito isso, o governo divulgou que o programa englobaria 7.760 famílias - 5.350 seriam retiradas do local e 2.410 permaneceriam em áreas desafetadas do Parque Estadual da Serra do Mar, que seriam devidamente urbanizadas.

De acordo com o coordenador do projeto, Elizeu Éclair Teixeira Borges, o programa deve encerrar o ano com 50% das famílias já reassentadas. "Em agosto, provavelmente no dia 6, vamos inaugurar um conjunto em São Vicente e com isso serão 439 famílias do programa reassentadas", disse o coronel. "O projeto vai até dezembro de 2011."

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